Thursday, July 24, 2003

Indíviduos Perpendiculares.

Pediu café. Café sempre pede um cigarro. Revistou-se. Pronto, perdera mais um isqueiro. 'Garçon, fósforos'. Deu a primeira tragada. Deixou o cigarro pousando entre os lábios, meio à lá Delon e tirou os óculos. Concentrou-se em polir as lentes com um guardanapo daqueles vagabundos que espalham a sujeira. Estava se preparando e logo avistou-a: livro em mãos, pedindo 2 cafés. 'Dois cafés?' se perguntou receoso de que ela estivesse esperando alguém. Assistiu a moça tomando o primeiro, sem açucar, devagarinho enquanto folheava o livro.

'Oi, meu nome é Paulo, prazer', 'Prazer, Paulo', 'Esta cadeira esta ocupada?' Tudo soava falso, cantadas baratas, e a moça começava o seu segundo cafezinho (que alívio, os dois eram pra ela), colocava o livro fechado sobre a mesa e Paulo sabia que ela estava se preparando para ir embora. A moça correu os olhos pelo restaurante, pediu a conta, guardou o livro e foi até o banheiro. Paulo deu a última tragada, esmagou a bituquinha no cinzeiro e, desesperançoso, recolheu o jornal de maneira desorganizada e foi-se também. Começava a chover, eram às 14h25 de uma quinta-feira qualquer.

-- Rusga!
Virou rapidamente.
-- Rusga: briga de marido e mulher com 5 letras. E 'altar de umbanda' é "aca" -- disse a moça estendendo-lhe o caderno do jornal que Paulo deixara pra trás.

Paulo, surpreso, lacônico e principalmente nervoso, respondeu:
-- ...Rusga, aca... Paulo, prazer.
(Não, definitivamente de todas as frases que ele mentalmente ensaiara "rusga-aca-paulo-prazer" não era a melhor. O que era aquilo? Código? É impressionante que todas as 3 décadas de vida até ali não siginificavam nada e Paulo engasgava como um pré-adolescente roubando seu primeiro beijo da primeira namoradinha.)
Por falta de espirituosidade resolveu fumar, virou a caixa de Marlboro na direção dela e ela aceitou um cigarro.
-- Prazer, Clara. Minha vó era viciada em palavras-cruzadas... Aca aparece pelo menos 8 vezes em cada edição da "Coquetel".
Paulo sorriu moderamente enquanto acendia o cigarro dela. E ela continuou:
-- E sempre me pergunto de onde tiraram essa porra de "aca".
Engoliu a frase quase que no meio e depois perguntou pra ele:
-- Você não se importa com palavrão, né?

Paulo adorou a pergunta e achou a maior graça na moça conversadora.
-- Hmm... Se eu fosse mais adepto dessa porra de aca, quem sabe...
Ela riu e Paulo abriu seu guarda-chuvas orgulhoso de ter extraído de seu cérebro quase catatônico alguma coisa engraçada. Ofereceu-lhe o braço e deu-lhe uma carona até o outro lado da rua, um edifício médico e Paulo achou melhor não perguntar o que ela faria ali. Mas, quando estavam prontos para irem cada um pro seu lado da história, de volta aos universos paralelos incomunicáveis, como há alguns minutos atrás naquele bar, Paulo arriscou:
-- Escuta, Clara, e se eu precisar de ajuda com o resto das palavras-cruzadas, tem algum telefone onde eu possa te encontrar?

E ela entrou no prédio e ele entrou na história.


*******

Algum leitor atencioso poderá dizer que a saída do papel acidentalmente deixado para trás por um personagem e resgatado por outro, já foi usada antes em outro conto meu. Daí, eu poderia alegar a velha cafajestada "nada se cria...", mas vou dar a cara pra bater porque foi irresistível! Caro leitor, essa saída me pareceu tão alegórica, tão perfeita, ainda mais sendo o caderno de palavras-cruzadas no dia em que as primeiras palavras foram cruzadas entre os dois personagens...

Thursday, July 17, 2003

Reality Check: o pior é que era tudo verdade

Nada, nadica de nada, era mentira, invenção da minha cabeçorra delirante por excesso de fritura e álcool. Verdade verdadeira. No duro! Sempre que você vir o título "Reality check" pode ter certeza de que é real. Quer dizer, resguardadas as diferenças no conceito de realidade dos povos. Tudo o que está em Reality Check é fato e ocorreu (redundância intencional) mas até eu mesma, tendo sido testemunha, às vezes desconfio que estejamos vivendo num sonho coletivo, uma coisa meio Raul Seixas misturada com Matrix -- sem tiroteio mas cheia de pílulas azuis, vermelhas, efervescentes, gelatinosas, ao gosto do freguês.

Engraçado que a história do Viagra (lê-se Vaiagra) foi a que provocou a maior polêmica e, repito, foi verdade! Agora, eu recebendo remédio de enxaqueca, que nem uma índia à beira do Monte Paschoal recebendo espelinho, ninguém achou maluquice, né?

Eu ouço as coisas mais apavorantes em português de gringo também. Eu morro de rir. Todo mundo quer dizer "Tudo bem". Dentre todas as palavras da língua portuguesa e todas as expressões paulistas, cariocas e tutti quanti, todos os gringos aprendem e nunca se esquecem do "tudo bem". Várias conclusões pipocam na caixola. Que coisa mais simpática dizer "alright", "everything's fine", "no problem" assim de cara em outra língua. É o espírito do brasileiro que contamina tudo. (Fico a pensar se para se virar no Brasuca só o que se precisa saber é "tchudo bem". Um amigo me disse que na França basta saber "moi aussi". Discordar de francês e em francês dá um trabalho...) Bom, o mais divertido é que nunca íamos pensar que essas duas palavras poderiam apresentar qualquer grau de dificuldade... É, mas é aí que the pig twists its tail. Esse monte de som anasalado que a gente nem lembra mais que emite, ninguém, ninguém, ninguém sabe fazer. 'Bem', lê-se beinmnmnm... tem esse sonzinho indefinido, delicioso, no final. Quem se importa se é com m ou n? Só a Tia Vilma da terceira série e por isso mesmo a gente aprendeu direitinho e tudo isso ficou grudado na nossa cabeça. Perceba: você, que está lendo meu blog, é um ser feliz só por falar português. Talvez a garota por quem você esteja apaixonado não te dê a menor bola, talvez tenham roubado teu carro, quem sabe você esteja com problemas no emprego... mas eu garanto que você é instantaneamente mais feliz que as pessoas em geral por ter nascido imerso na última flor do lácio (...inculta e bela...) e saber intuitivamente se é m ou n, b ou v, dois r ou um só, s, z ou dois s... Só a gente sabe tudo isso. No nosso idioma é óbvio, mas advinhar no idioma dos outros é fácil como um pedaço de bolo.

Até que um dia um sujeito venezuelano virou pra mim, bêbado é claro, e, tendo esperado o momento mais oportuno quando todos pararam de falar, proferiu: "O cachorro-quente do João é muito gostoso". Eu fui correndo pro banheiro senão tinha feito xixi na calça. Quando voltei o mistério pairava: nem o venezuelano sabia o que ele mesmo tinha aprendido em português! Johnny's hotdog is very tasty -- for whatever it's worth. Isso mesmo, essa cara que você está fazendo, foi a cara que todo mundo fez.

Eita ferro! Oh Iron!

E só posso terminar dizendo que o pior é que é verdade.

Tuesday, July 15, 2003

Mundos paralelos: esperança e inércia.

Cansada de brigar com o vento que insistia em folhear seu livro, e sentindo o peso dos óculos de sol sob o nariz vermelho, desistiu da leitura. E o vento parou. Era só para provocá-la, só podia ser. Deitou-se de costas e ficou curtindo a inércia. Lá do fundo ouviu telefone tocando, cachorro latindo e, por fim, um par de havaianas estalando pelo chão. O pléc-pléc cessou.
-- Dona Dora, é o seu marido, qué dizê, é o seu Agenor.
-- Oi. Hã, hã. Tá. Quantos são? Que horas? Tá. Tá bom, eu coloco a saia preta. Beijo. Tchau.
-- Ele pediu pra fazer o salmão - disse Lourdes, argumentativa.
-- Frango.
-- Mas dona Dora...
-- Faz aquele frango temperadinho mesmo, tô com salmão por aqui - apontando a garganta - , um arroz bem gostoso, umas folhas de entrada - tanto faz - liga pro mercadinho da esquina e pede pra eles entregarem
-- A senhora vai me desculpar, mas essas coisas a gente tem que pegar na mão pra escolher, apertar, ver se está maduro..
-- É pra isso que eu te contratei. Vai lá você. Ou eu tenho cara de quem sabe escolher legume?
-- Ô dona Dora, que mal lhe pergunte, mas agora, depois de...de... de ter voltado do hospital a senhora vai ficar aqui fazendo nada....
E Lourdes parou de repente. Na mesinha da piscina havia pousado um interessante inseto verde.
-- Eca, que é isso, tira isso daqui, Lourdes, pelo amor de Deus...
-- Dona Dora, é uma esperança! É sorte, bom presságio!
-- Esperança é? Dora resgatou o livro debaixo da espreguiçadeira e deu com ele em cima do bicho.
Lourdes foi resmungando pra cozinha e desamarrando o avental, o pléc-pléc dos chinelos, por sorte, abafava os desaforos. Ia passar na vendinha pra escolher os legumes do seu Agenor.

E Dora ia continuar curtindo a inércia, fazendo nada o dia todo. Sem esperança nenhuma pra atrapalhar.

*****

Dias depois, lá do escritório, no meio de um sábado mais ou menos, Agenor gritou:
-- Que porra é essa, grudada no meu livro? Ô Dora...

Dora entrou no banheiro correndo. E, lá da cozinha, Lourdes deu risada. Resmungou:
-- Era a esperança, seu Agenor.

Mas ele não ouviu.

Monday, July 14, 2003

Reality Check - Primeiro mundo

Quer saber o que é primeiro mundo? É calmante na espera do dentista.

Calmante mesmo. E aquela velha história de que não há civilização abaixo do Equador? Não há civilização sem Lexotan, isso sim. Se inventaram esses produtos delirantes (ao pé da palavra) proveninentes da papoula (pra não dizer ópio, pega mal, pega mal...) pra quê sentir dor e incômodo? E o pior é que eu acho que quem se beneficia mais é o dentista. Dentista de primeiro mundo não quer paciente reclamando, levantando a mão toda vez que ele precisa chegar perto do nervo com o motorzinho.

Aqui, remédio é mais importante que amizade e que dinheiro. Precisa de carona, te levo, precisa de alguns dólares, te empresto, mas não venha pedindo calmante, anti-histamínico ou sonífero 'du bão', não! Prescription Drugs não, violão! Acompanhe a historieta: uma amiga gringa tava desconfiada que o namorado tinha outra. Encontrou um comprovante do cartão de crédito dele de lingerie que não foi presente pra ela. Algum tempo depois, encontrou umas camisinhas no necessaire que ele ia levar pra uma suposta viagem de negócios. Mas aí, a gota d'água veio no dia em que ela encontrou uma cartelinha de Viagra, já com algumas cápsulas faltando: traição mesmo não é dormir com outra, é usar Viagra com outra! Aí ela terminou tudo e pronto. Pura sem vergonhice. Eu também não ia admitir que meu marido quisesse ter uma performance melhor com a outra!!! Onde já se viu? Ir lá, dar umas bimbadinhas é uma coisa. Comprar Viagra pra comer a amante é intolerável.

Uma outra gringa se hospedou lá em casa por 1 semana. Eu fiz as vezes de cicerone e a levei pra uns lugares descolados. (Detalhe que essa foi a que me fez comprar a tanga e os bobs elétricos recheados de cera - opa! too much information!, a historia dos bobs fica pra próxima...) Bom, chegou o dia de ela ir embora e, como presente de gratidão, ela me deixou duas amostras do remédio dela pra enxaqueca!!! Vê se pode? Que coisa mais amável! Eu ainda não tomei. Pra falar a verdade, fiquei com medo. Ou ainda não tive a enxaqueca que merecesse 50% do meu estoque de drogas 'barra pesada' americanas. Quase tive. Foi da última vez que algum local me fez uma pergunta idiota sobre o Brasil. Escuta, não agüento mais!!! Só eles tem as manhas de perguntar com naturalidade se o Brasil fica mais ao sul da Costa Rica. Se Belize é uma parte do Brasil. Ah, e a melhor de todas, se tem forno de microondas no Brasil. Essa foi de autoria de uma moça, loira por sinal, sem querer generalizar, mas ela sofria daquela falta de neurônios por causa da falta de pigmento no cabelo.

Quer saber, Belize é a capital do Brasil! Microondas? Pra que serve? Costa Rica, nunca ouvi falar. Aliás, abaixo da linha do Equador, existe alguma coisa de verdade ou é só especulação do tipo "existe vida em Marte"?

Amigo leitor, nós somos ETs!!! Tá lá, no meu visto de trabalho: Legal Alien.

Ué, e tem termo mais apropriado?
Indivíduos adjacentes: Clara.

O beijo está ganho quando um respira o mesmo ar que outro expirou, to catch a breath. Clara sabia que o beijo daquela noite já estava anunciado, ganhara a aposta, era questão de tempo apenas. E que aposta era essa que Clara queria vencer? Era uma aposta enviesada consigo mesma.

Não era simplesmente beijar alguém, era quase beijar ninguém, meticulosamente escolhido pra ser desimportante, pra não fazer diferença, pra não ligar nunca mais e, no dia seguinte, era só mais um risquinho na parede da cela onde Clara se escondia do amor, da paixão. Porém, apesar de ela ganhar essa aposta quase sempre, quase sempre, mal sabia ela (privilégios de narrador onisciente) que, apostando consigo, uma parte de si sempre perdia.

Chegou em casa, cantando vitória, com perfume de homem e cheiro de cigarro. Despiu-se em frente do espelho. Adorava seu umbigo, sua barriga, admirou-se nua, se achava bonita e, quando tirou o sutiã, viu uma marca roxa. Observou. Era um apertão que manchava sua branca pele. Poderia ser um polegar, poderia ser um beijo acalorado (e, a pior dúvida: poderia ter sido fruto da aposta de hoje ou da aposta passada também). O roxo no seio era prova irrefutável de que tudo aquilo que ela estava fazendo consigo a marcava visivelmente.

Por quê, Clara? Se achava-se tão bonita, se o espelho lhe mostrava tudo aquilo que sabia ser, se sabia mesmo tudo o que era e amava-se, por que sabotar-se assim? Cada beijo insignificante era mais um pedregulho na muralha reichiana que a separava de si mesma. Que a escondia do espelho, da imagem bonita de si nua. Pouco a pouco transformava-se em algo irreconhecível, ainda sem forma, sem nome, sem jeito. Às vezes Clara queria acreditar que era fruto da maturidade, da vida adulta, que estava crescendo e o mundo era assim mesmo. Não, não era. Era conseqüência da negligência que tinha consigo: beijar alguém sem importância convertia-se em não dar a devida importância a si mesma. E, apesar de admirar-se longamente nua, diante do espelho, de usar o melhor creme nos cabelos, perfume francês, sabonete importado, ao recostar-se aquela noite odiou-se por ter se deixado marcar daquela maneira violenta, no seio, a parte mais delicada e mais feminina do corpo da mulher.

E o que poderia ter sido um lindo e longo beijo, sob a lua cheia, coroado com uma chuva morna e o céu límpido do verão, era um momento insensível, vazio e ainda repleto de agressividade e não de carinho. Ela pensava que ganhara a aposta e pronto, podia beijar qualquer um. Mas a questão era outra. Será que o que Clara queria mesmo beijar qualquer um?

Tuesday, July 08, 2003

Reality Check: Crônicas

Aqui é quase tudo igual. Quase.

Dizem "Buen Día" que só com um pinguinho de boa vontade é igualzinho ao nosso "Bom Dia" com o qual se pode replicar e ser muito bem compreendido. Tem até Caipirinha! Quer dizer, malemá... é sempre uma aposta no escuro quando se ouve um garçon cubano-colombiano-venezuelano-argentino dizer que ele sabe preparar a 'melhor' Caipirina. Ou então é assim você pede Caipirinha e alguém muito lá do fundo do bar diz que não tem, mas tem Mojito. E que porra mojito tem a ver com caipirinha! Rum com hortelã - pelamordedeus...
O problema, amiga, é ter que ceder àquele cetim brilhante em cores torturantes como turquesa ou pink, à lá De Millus, da Victoria's Secret. E já que é pra entrar na onda, melhor se tiver desconto do cartão da loja, é verdade, eu cedi, preenchi um formulário e tudo mais. E aí é que entra uma diferença básica, a tanga. Cautela. Tanga é o fio dental que a gente só usa na praia ("a gente" não, cara pálida, eu nunca usei fio dental, não tenho cacife...). Aqui a mulherada veste aquilo, aquele fiozinho -- popularmente apelidado pelo Faustão e outros domenicais do Brasil de "tapa-sexo", que nome lindo! -- o dia todo. Todo dia. A mulherada tem pavor de VPL, me explicou uma gringa. Visible Panty Line. Nossa, em toda minha vida, isso nunca foi uma preocupação muito grande. Vá lá combinar o sutiã com a calcinha e que sejam de cores claras se a roupa for também, mas é só. VPL é o problema. O acetinado chocante e o elástico grosseiro que custam entre 20 e 60 dólares não é... Ai, Valisére, me socorra!
Mas, como quem não pode vencê-los, junta-se a eles, eu comprei a tanga. The Thong. E fui feliz de saia branca curtir minha tarde de domingo -- VPL Free. Uma sensação de liberdade, de coragem, de não estar usando nada -- uma coisa assim Lilian Ramos -- me encheu de alegria. Encontrei um amigo: "You look so Miami!" -- Meu Deus será que ele viu que eu estava usando minha primeira tanga? Impossível, nada se vê...

Virei fã da tanga, dos 15% de desconto do cartão Victoria's Secret e, fazer o quê, quando não tem Caipirinha, eu tomo Mojito mesmo...E agora preciso me acostumar com o jogging, porque se no futuro eu tirar minha roupa na frente de alguém, melhor fazer jus ao mito do bum-bum da mulher brasileira...

Monday, July 07, 2003

Linhas cruzadas

-- E aí? - disse Sofia com uma curiosidade capaz de resistir a toda trilha sonora de aspirador e criança chorando no fundo, do seu lado do telefonema.
-- E aí nada - respondeu Clara, lacônica - nada mesmo, ele não disse nada, simplesmente levantou da mesa, estendeu a mão, nem pra me dar um beijo... me cumprimentou e foi-se embora.
-- Virou e foi embora?
-- É. Também perdeu a chance da vida dele. Perdeu, não quero nunca mais vê-lo na minha frente.

Era mentira. E Clara revisava logo em seguida seu último comentário:

-- Será que eles sabem, Sofia?
-- Do quê?
-- Que a gente já escolheu o modelo do vestido de noiva e nome dos filhos? Que a gente assina com o sobrenome deles pra ver se combina com o nosso nome? Que a gente revive a conversa na frente do espelho e inventa 30 tiradas mais espirituosas que a gente queria ter dito ao invés dos "hã-hãs"? E, que depois de todo o mico, ainda por cima, a gente discute e conta tudo com riqueza de detalhes pras amigas? Será que eles desconfiam? Ai chega, melhor mudar de assunto...

Do outro lado da linha uma Nívea chorosa e uma Sofia impaciente...

-- E o Peixoto?
-- Tá ótimo. Se instalou completamente no meu apartamento. Sofia, agora não tem mais volta. Parece que sou eu que estou aqui de favor. Realmente não consigo entender como pude viver sem Peixoto até agora...
-- Clara Maria, só você...
-- Sofia Eugênia, vou deixar você com seus afazeres maternos... Depois falamos. Beijo.
-- Beijo e cuida bem do meu gato.

E Clara pegou Peixoto no colo, abraçou-o todinho até ele reclamar com um miado desafinado.

-- Peixoto, Peixoto... Será que eles sabem?

E o gato respondeu prontamente virando de costas e indo embora com seu passo lento e elegante. Sem nem olhar pra trás.

-- Tá vendo! Homem é tudo igual!

Wednesday, July 02, 2003

Cheguei em casa, tirei meus sapatos e, quando estava pronta para sofrer minha hipnose televisiva diária, toca o telefone. Era Amélia. E Amélia é um personagem diferente. Ela me liga e me manda escrever a história dela. Ou melhor, ela me conta, ela me diz tudo e no final, depois de meu longo silêncio obediente, escutando, eu digo "claro, escrevo". Amélia se impôs a história e eu, que não posso ser Amélia, nem viver a sua vida, a escrevo (ou sonho). Viu Amélia? Taí.

Correntes transversais

Tirou as sandálias desamarrou a toalha e correu para o mar. Jogou-se nas águas, mergulhou e já depois da arrebentação das ondas, acenou lá do fundo.
-- Tá gelada?
-- Vem logo! Vem!
Amélia, pequena, boiando no horizonte, era razão suficiente pra Laércio desfazer-se da camisa, dos óculos e enfrentar o frio do mar. Logo estava lá perto e beijavam-se como nunca. Nunca? É, nunca haviam se beijado no mar, com a boca gelada e meio salgada, na parte calma do oceano, sem dar pé, no silêncio absoluto, no final da tarde, contra o céu vermelho... era tudo sonho.

Se fosse sonho de Amélia, importante era notar a pergunta que Laércio fazia a ela sobre a temperatura da água. Ela já havia pulado de cabeça e ganhado as ondas, o oceano, e ele titubeou. Se o sonho fosse de Laércio, focaríamos na Amélia pequenina acenando lá do fundo e ele se apressando em entrar no mar a despeito de todo o resto, por um beijo que fosse. Amélia atirava-se na frente, mergulhava e chamava Laércio. Ele preocupava-se porém, mesmo sem saber a temperatura, desfazia-se das roupas e jogava-se no mar pra se juntar a Amélia.

E juntos, no final, depois da arrebentação das ondas (que é bagunça, barulho), depois de desfazer-se das roupas e tudo aquilo que atrapalhava (e que pesaria demais com a água), naquele mar tranquilo, contra aquele céu vermelho, aquele beijo calmo, gelado e salgado selava o sonho compartilhado pelos dois. E terminava aí. Ou será que começava aí?

Tuesday, July 01, 2003

It's got caché, baby! It's got caché up in the Yin Yang!

George Cos-taaaan-za, in Seinfeld.