Thursday, July 17, 2003

Reality Check: o pior é que era tudo verdade

Nada, nadica de nada, era mentira, invenção da minha cabeçorra delirante por excesso de fritura e álcool. Verdade verdadeira. No duro! Sempre que você vir o título "Reality check" pode ter certeza de que é real. Quer dizer, resguardadas as diferenças no conceito de realidade dos povos. Tudo o que está em Reality Check é fato e ocorreu (redundância intencional) mas até eu mesma, tendo sido testemunha, às vezes desconfio que estejamos vivendo num sonho coletivo, uma coisa meio Raul Seixas misturada com Matrix -- sem tiroteio mas cheia de pílulas azuis, vermelhas, efervescentes, gelatinosas, ao gosto do freguês.

Engraçado que a história do Viagra (lê-se Vaiagra) foi a que provocou a maior polêmica e, repito, foi verdade! Agora, eu recebendo remédio de enxaqueca, que nem uma índia à beira do Monte Paschoal recebendo espelinho, ninguém achou maluquice, né?

Eu ouço as coisas mais apavorantes em português de gringo também. Eu morro de rir. Todo mundo quer dizer "Tudo bem". Dentre todas as palavras da língua portuguesa e todas as expressões paulistas, cariocas e tutti quanti, todos os gringos aprendem e nunca se esquecem do "tudo bem". Várias conclusões pipocam na caixola. Que coisa mais simpática dizer "alright", "everything's fine", "no problem" assim de cara em outra língua. É o espírito do brasileiro que contamina tudo. (Fico a pensar se para se virar no Brasuca só o que se precisa saber é "tchudo bem". Um amigo me disse que na França basta saber "moi aussi". Discordar de francês e em francês dá um trabalho...) Bom, o mais divertido é que nunca íamos pensar que essas duas palavras poderiam apresentar qualquer grau de dificuldade... É, mas é aí que the pig twists its tail. Esse monte de som anasalado que a gente nem lembra mais que emite, ninguém, ninguém, ninguém sabe fazer. 'Bem', lê-se beinmnmnm... tem esse sonzinho indefinido, delicioso, no final. Quem se importa se é com m ou n? Só a Tia Vilma da terceira série e por isso mesmo a gente aprendeu direitinho e tudo isso ficou grudado na nossa cabeça. Perceba: você, que está lendo meu blog, é um ser feliz só por falar português. Talvez a garota por quem você esteja apaixonado não te dê a menor bola, talvez tenham roubado teu carro, quem sabe você esteja com problemas no emprego... mas eu garanto que você é instantaneamente mais feliz que as pessoas em geral por ter nascido imerso na última flor do lácio (...inculta e bela...) e saber intuitivamente se é m ou n, b ou v, dois r ou um só, s, z ou dois s... Só a gente sabe tudo isso. No nosso idioma é óbvio, mas advinhar no idioma dos outros é fácil como um pedaço de bolo.

Até que um dia um sujeito venezuelano virou pra mim, bêbado é claro, e, tendo esperado o momento mais oportuno quando todos pararam de falar, proferiu: "O cachorro-quente do João é muito gostoso". Eu fui correndo pro banheiro senão tinha feito xixi na calça. Quando voltei o mistério pairava: nem o venezuelano sabia o que ele mesmo tinha aprendido em português! Johnny's hotdog is very tasty -- for whatever it's worth. Isso mesmo, essa cara que você está fazendo, foi a cara que todo mundo fez.

Eita ferro! Oh Iron!

E só posso terminar dizendo que o pior é que é verdade.

Tuesday, July 15, 2003

Mundos paralelos: esperança e inércia.

Cansada de brigar com o vento que insistia em folhear seu livro, e sentindo o peso dos óculos de sol sob o nariz vermelho, desistiu da leitura. E o vento parou. Era só para provocá-la, só podia ser. Deitou-se de costas e ficou curtindo a inércia. Lá do fundo ouviu telefone tocando, cachorro latindo e, por fim, um par de havaianas estalando pelo chão. O pléc-pléc cessou.
-- Dona Dora, é o seu marido, qué dizê, é o seu Agenor.
-- Oi. Hã, hã. Tá. Quantos são? Que horas? Tá. Tá bom, eu coloco a saia preta. Beijo. Tchau.
-- Ele pediu pra fazer o salmão - disse Lourdes, argumentativa.
-- Frango.
-- Mas dona Dora...
-- Faz aquele frango temperadinho mesmo, tô com salmão por aqui - apontando a garganta - , um arroz bem gostoso, umas folhas de entrada - tanto faz - liga pro mercadinho da esquina e pede pra eles entregarem
-- A senhora vai me desculpar, mas essas coisas a gente tem que pegar na mão pra escolher, apertar, ver se está maduro..
-- É pra isso que eu te contratei. Vai lá você. Ou eu tenho cara de quem sabe escolher legume?
-- Ô dona Dora, que mal lhe pergunte, mas agora, depois de...de... de ter voltado do hospital a senhora vai ficar aqui fazendo nada....
E Lourdes parou de repente. Na mesinha da piscina havia pousado um interessante inseto verde.
-- Eca, que é isso, tira isso daqui, Lourdes, pelo amor de Deus...
-- Dona Dora, é uma esperança! É sorte, bom presságio!
-- Esperança é? Dora resgatou o livro debaixo da espreguiçadeira e deu com ele em cima do bicho.
Lourdes foi resmungando pra cozinha e desamarrando o avental, o pléc-pléc dos chinelos, por sorte, abafava os desaforos. Ia passar na vendinha pra escolher os legumes do seu Agenor.

E Dora ia continuar curtindo a inércia, fazendo nada o dia todo. Sem esperança nenhuma pra atrapalhar.

*****

Dias depois, lá do escritório, no meio de um sábado mais ou menos, Agenor gritou:
-- Que porra é essa, grudada no meu livro? Ô Dora...

Dora entrou no banheiro correndo. E, lá da cozinha, Lourdes deu risada. Resmungou:
-- Era a esperança, seu Agenor.

Mas ele não ouviu.

Monday, July 14, 2003

Reality Check - Primeiro mundo

Quer saber o que é primeiro mundo? É calmante na espera do dentista.

Calmante mesmo. E aquela velha história de que não há civilização abaixo do Equador? Não há civilização sem Lexotan, isso sim. Se inventaram esses produtos delirantes (ao pé da palavra) proveninentes da papoula (pra não dizer ópio, pega mal, pega mal...) pra quê sentir dor e incômodo? E o pior é que eu acho que quem se beneficia mais é o dentista. Dentista de primeiro mundo não quer paciente reclamando, levantando a mão toda vez que ele precisa chegar perto do nervo com o motorzinho.

Aqui, remédio é mais importante que amizade e que dinheiro. Precisa de carona, te levo, precisa de alguns dólares, te empresto, mas não venha pedindo calmante, anti-histamínico ou sonífero 'du bão', não! Prescription Drugs não, violão! Acompanhe a historieta: uma amiga gringa tava desconfiada que o namorado tinha outra. Encontrou um comprovante do cartão de crédito dele de lingerie que não foi presente pra ela. Algum tempo depois, encontrou umas camisinhas no necessaire que ele ia levar pra uma suposta viagem de negócios. Mas aí, a gota d'água veio no dia em que ela encontrou uma cartelinha de Viagra, já com algumas cápsulas faltando: traição mesmo não é dormir com outra, é usar Viagra com outra! Aí ela terminou tudo e pronto. Pura sem vergonhice. Eu também não ia admitir que meu marido quisesse ter uma performance melhor com a outra!!! Onde já se viu? Ir lá, dar umas bimbadinhas é uma coisa. Comprar Viagra pra comer a amante é intolerável.

Uma outra gringa se hospedou lá em casa por 1 semana. Eu fiz as vezes de cicerone e a levei pra uns lugares descolados. (Detalhe que essa foi a que me fez comprar a tanga e os bobs elétricos recheados de cera - opa! too much information!, a historia dos bobs fica pra próxima...) Bom, chegou o dia de ela ir embora e, como presente de gratidão, ela me deixou duas amostras do remédio dela pra enxaqueca!!! Vê se pode? Que coisa mais amável! Eu ainda não tomei. Pra falar a verdade, fiquei com medo. Ou ainda não tive a enxaqueca que merecesse 50% do meu estoque de drogas 'barra pesada' americanas. Quase tive. Foi da última vez que algum local me fez uma pergunta idiota sobre o Brasil. Escuta, não agüento mais!!! Só eles tem as manhas de perguntar com naturalidade se o Brasil fica mais ao sul da Costa Rica. Se Belize é uma parte do Brasil. Ah, e a melhor de todas, se tem forno de microondas no Brasil. Essa foi de autoria de uma moça, loira por sinal, sem querer generalizar, mas ela sofria daquela falta de neurônios por causa da falta de pigmento no cabelo.

Quer saber, Belize é a capital do Brasil! Microondas? Pra que serve? Costa Rica, nunca ouvi falar. Aliás, abaixo da linha do Equador, existe alguma coisa de verdade ou é só especulação do tipo "existe vida em Marte"?

Amigo leitor, nós somos ETs!!! Tá lá, no meu visto de trabalho: Legal Alien.

Ué, e tem termo mais apropriado?
Indivíduos adjacentes: Clara.

O beijo está ganho quando um respira o mesmo ar que outro expirou, to catch a breath. Clara sabia que o beijo daquela noite já estava anunciado, ganhara a aposta, era questão de tempo apenas. E que aposta era essa que Clara queria vencer? Era uma aposta enviesada consigo mesma.

Não era simplesmente beijar alguém, era quase beijar ninguém, meticulosamente escolhido pra ser desimportante, pra não fazer diferença, pra não ligar nunca mais e, no dia seguinte, era só mais um risquinho na parede da cela onde Clara se escondia do amor, da paixão. Porém, apesar de ela ganhar essa aposta quase sempre, quase sempre, mal sabia ela (privilégios de narrador onisciente) que, apostando consigo, uma parte de si sempre perdia.

Chegou em casa, cantando vitória, com perfume de homem e cheiro de cigarro. Despiu-se em frente do espelho. Adorava seu umbigo, sua barriga, admirou-se nua, se achava bonita e, quando tirou o sutiã, viu uma marca roxa. Observou. Era um apertão que manchava sua branca pele. Poderia ser um polegar, poderia ser um beijo acalorado (e, a pior dúvida: poderia ter sido fruto da aposta de hoje ou da aposta passada também). O roxo no seio era prova irrefutável de que tudo aquilo que ela estava fazendo consigo a marcava visivelmente.

Por quê, Clara? Se achava-se tão bonita, se o espelho lhe mostrava tudo aquilo que sabia ser, se sabia mesmo tudo o que era e amava-se, por que sabotar-se assim? Cada beijo insignificante era mais um pedregulho na muralha reichiana que a separava de si mesma. Que a escondia do espelho, da imagem bonita de si nua. Pouco a pouco transformava-se em algo irreconhecível, ainda sem forma, sem nome, sem jeito. Às vezes Clara queria acreditar que era fruto da maturidade, da vida adulta, que estava crescendo e o mundo era assim mesmo. Não, não era. Era conseqüência da negligência que tinha consigo: beijar alguém sem importância convertia-se em não dar a devida importância a si mesma. E, apesar de admirar-se longamente nua, diante do espelho, de usar o melhor creme nos cabelos, perfume francês, sabonete importado, ao recostar-se aquela noite odiou-se por ter se deixado marcar daquela maneira violenta, no seio, a parte mais delicada e mais feminina do corpo da mulher.

E o que poderia ter sido um lindo e longo beijo, sob a lua cheia, coroado com uma chuva morna e o céu límpido do verão, era um momento insensível, vazio e ainda repleto de agressividade e não de carinho. Ela pensava que ganhara a aposta e pronto, podia beijar qualquer um. Mas a questão era outra. Será que o que Clara queria mesmo beijar qualquer um?

Tuesday, July 08, 2003

Reality Check: Crônicas

Aqui é quase tudo igual. Quase.

Dizem "Buen Día" que só com um pinguinho de boa vontade é igualzinho ao nosso "Bom Dia" com o qual se pode replicar e ser muito bem compreendido. Tem até Caipirinha! Quer dizer, malemá... é sempre uma aposta no escuro quando se ouve um garçon cubano-colombiano-venezuelano-argentino dizer que ele sabe preparar a 'melhor' Caipirina. Ou então é assim você pede Caipirinha e alguém muito lá do fundo do bar diz que não tem, mas tem Mojito. E que porra mojito tem a ver com caipirinha! Rum com hortelã - pelamordedeus...
O problema, amiga, é ter que ceder àquele cetim brilhante em cores torturantes como turquesa ou pink, à lá De Millus, da Victoria's Secret. E já que é pra entrar na onda, melhor se tiver desconto do cartão da loja, é verdade, eu cedi, preenchi um formulário e tudo mais. E aí é que entra uma diferença básica, a tanga. Cautela. Tanga é o fio dental que a gente só usa na praia ("a gente" não, cara pálida, eu nunca usei fio dental, não tenho cacife...). Aqui a mulherada veste aquilo, aquele fiozinho -- popularmente apelidado pelo Faustão e outros domenicais do Brasil de "tapa-sexo", que nome lindo! -- o dia todo. Todo dia. A mulherada tem pavor de VPL, me explicou uma gringa. Visible Panty Line. Nossa, em toda minha vida, isso nunca foi uma preocupação muito grande. Vá lá combinar o sutiã com a calcinha e que sejam de cores claras se a roupa for também, mas é só. VPL é o problema. O acetinado chocante e o elástico grosseiro que custam entre 20 e 60 dólares não é... Ai, Valisére, me socorra!
Mas, como quem não pode vencê-los, junta-se a eles, eu comprei a tanga. The Thong. E fui feliz de saia branca curtir minha tarde de domingo -- VPL Free. Uma sensação de liberdade, de coragem, de não estar usando nada -- uma coisa assim Lilian Ramos -- me encheu de alegria. Encontrei um amigo: "You look so Miami!" -- Meu Deus será que ele viu que eu estava usando minha primeira tanga? Impossível, nada se vê...

Virei fã da tanga, dos 15% de desconto do cartão Victoria's Secret e, fazer o quê, quando não tem Caipirinha, eu tomo Mojito mesmo...E agora preciso me acostumar com o jogging, porque se no futuro eu tirar minha roupa na frente de alguém, melhor fazer jus ao mito do bum-bum da mulher brasileira...

Monday, July 07, 2003

Linhas cruzadas

-- E aí? - disse Sofia com uma curiosidade capaz de resistir a toda trilha sonora de aspirador e criança chorando no fundo, do seu lado do telefonema.
-- E aí nada - respondeu Clara, lacônica - nada mesmo, ele não disse nada, simplesmente levantou da mesa, estendeu a mão, nem pra me dar um beijo... me cumprimentou e foi-se embora.
-- Virou e foi embora?
-- É. Também perdeu a chance da vida dele. Perdeu, não quero nunca mais vê-lo na minha frente.

Era mentira. E Clara revisava logo em seguida seu último comentário:

-- Será que eles sabem, Sofia?
-- Do quê?
-- Que a gente já escolheu o modelo do vestido de noiva e nome dos filhos? Que a gente assina com o sobrenome deles pra ver se combina com o nosso nome? Que a gente revive a conversa na frente do espelho e inventa 30 tiradas mais espirituosas que a gente queria ter dito ao invés dos "hã-hãs"? E, que depois de todo o mico, ainda por cima, a gente discute e conta tudo com riqueza de detalhes pras amigas? Será que eles desconfiam? Ai chega, melhor mudar de assunto...

Do outro lado da linha uma Nívea chorosa e uma Sofia impaciente...

-- E o Peixoto?
-- Tá ótimo. Se instalou completamente no meu apartamento. Sofia, agora não tem mais volta. Parece que sou eu que estou aqui de favor. Realmente não consigo entender como pude viver sem Peixoto até agora...
-- Clara Maria, só você...
-- Sofia Eugênia, vou deixar você com seus afazeres maternos... Depois falamos. Beijo.
-- Beijo e cuida bem do meu gato.

E Clara pegou Peixoto no colo, abraçou-o todinho até ele reclamar com um miado desafinado.

-- Peixoto, Peixoto... Será que eles sabem?

E o gato respondeu prontamente virando de costas e indo embora com seu passo lento e elegante. Sem nem olhar pra trás.

-- Tá vendo! Homem é tudo igual!

Wednesday, July 02, 2003

Cheguei em casa, tirei meus sapatos e, quando estava pronta para sofrer minha hipnose televisiva diária, toca o telefone. Era Amélia. E Amélia é um personagem diferente. Ela me liga e me manda escrever a história dela. Ou melhor, ela me conta, ela me diz tudo e no final, depois de meu longo silêncio obediente, escutando, eu digo "claro, escrevo". Amélia se impôs a história e eu, que não posso ser Amélia, nem viver a sua vida, a escrevo (ou sonho). Viu Amélia? Taí.

Correntes transversais

Tirou as sandálias desamarrou a toalha e correu para o mar. Jogou-se nas águas, mergulhou e já depois da arrebentação das ondas, acenou lá do fundo.
-- Tá gelada?
-- Vem logo! Vem!
Amélia, pequena, boiando no horizonte, era razão suficiente pra Laércio desfazer-se da camisa, dos óculos e enfrentar o frio do mar. Logo estava lá perto e beijavam-se como nunca. Nunca? É, nunca haviam se beijado no mar, com a boca gelada e meio salgada, na parte calma do oceano, sem dar pé, no silêncio absoluto, no final da tarde, contra o céu vermelho... era tudo sonho.

Se fosse sonho de Amélia, importante era notar a pergunta que Laércio fazia a ela sobre a temperatura da água. Ela já havia pulado de cabeça e ganhado as ondas, o oceano, e ele titubeou. Se o sonho fosse de Laércio, focaríamos na Amélia pequenina acenando lá do fundo e ele se apressando em entrar no mar a despeito de todo o resto, por um beijo que fosse. Amélia atirava-se na frente, mergulhava e chamava Laércio. Ele preocupava-se porém, mesmo sem saber a temperatura, desfazia-se das roupas e jogava-se no mar pra se juntar a Amélia.

E juntos, no final, depois da arrebentação das ondas (que é bagunça, barulho), depois de desfazer-se das roupas e tudo aquilo que atrapalhava (e que pesaria demais com a água), naquele mar tranquilo, contra aquele céu vermelho, aquele beijo calmo, gelado e salgado selava o sonho compartilhado pelos dois. E terminava aí. Ou será que começava aí?

Tuesday, July 01, 2003

It's got caché, baby! It's got caché up in the Yin Yang!

George Cos-taaaan-za, in Seinfeld.

Monday, June 30, 2003

Indivíduos Adjacentes: Sofia.

Entrava no banheiro apressada. Não, não era bexiga, mas a vontade de chorar que a fazia correr lá pra dentro. Sofia sentava na tampa do vaso, curvava-se, levava as mãos a cabeça e só depois de longos soluços - silenciosos, como só ela sabia soluçar em silêncio - ia começar a tentar entender porque estava chorando. Era tudo. Era tudo a sua volta que a fazia chorar. Não que tudo fosse potencialmente triste, mas tudo a atingia de alguma forma e a única reação que ela conseguia ter diante de qualquer estímulo neste período de sua vida era o choro. Nunca trancava a porta do banheiro, porque se acontecesse alguma coisa poderia sair rapidamente (mas lá no fundo sabia que na verdade tinha medo de que acontecesse algo com ela lá dentro e se a porta estivesse trancada, demorariam mais para ouví-la e resgatá-la).

Tinha vergonha de se sentir assim. Lavava o rosto repetidas vezes com água bem fria pra não revelar os olhos inchados. Porém Sofia já intuia que seu pequeno intervalo estava prestes a terminar e ficava diante do espelho, falando consigo mesma pelos minutos restantes.

Como um ator nas coxias do teatro espera os três avisos sonoros, ela também esperava o seu sinal para sair dali. Repassando em sua mente, não o texto da peça, mas um pequeno mantra de afazeres e tarefas e tudo o que ela não podia esquecer. Quando ouviu seu sinal, inconfundível, apressou-se em sair do banheiro e desabotoou a blusa no caminho. Debruçou sobre a grade do berço e Nívea agora já se acalmava pois percebia a chegada da mãe. Colocou-a perto do coração, sentou-se perto da janela para amamentar. O papel de mãe era para Sofia uma coisa surpreendente: a solidão de uma no banheiro era interrompida pela solidão da outra no quarto (e a fome da mamada da tarde ou uma fralda suja) e logo sabiam que precisavam estar juntas de novo para que tudo se resolvesse, a dor acabasse, a fome passasse, a solidão sumisse. Só Nívea podia tirar Sofia do banheiro com seu poder recém-nascido bem como, só Sofia podia saciar a fome e cuidar da pequena Nívea, só ela sabia, e era verdade, distingüir se o chorinho estridente era fome, dor de ouvido, cólicas ou troca de fralda.
Pensando bem, Sofia entendia como seus parâmetros haviam mudado: todo o resto, tudo o que não fosse Nívea, era mais feio e triste e só poderia ser razão pra chorar de vez em quando mesmo.

Friday, June 27, 2003

Mundos paralelos, indivíduos adjacentes - Delta de Vênus

O primeiro triângulo da história se estabelece a partir de Clara, Sofia e Dora. A base do triângulo é formada por Clara e Sofia unidas por uma reta firme que representava a compreensão total entre as duas. O terceiro vértice era Dora sozinha no alto, um ponto instável, às vezes mais distante, às vezes mais próxima.

Se Clara e Sofia haviam se aproximado por uma incrível compreensão silenciosa e mútua, o que as atraía para Dora era o oposto: incompreensão total. Dora era o contrário das duas ao mesmo tempo e, sendo assim, também era parte de cada uma delas como o negativo de uma foto ou o lado apagado da Lua. Três ângulos, três vértices distintos que formavam o mesmo polígono, três vidas que colidiram em uma mesma figura e se desdobram em muitas mais retas, tangentes, transversais...

A tentativa de suicídio de Dora era o motivo para a primeira reunião das três, num quarto excessivamente branco. Sofia, sentada na cadeira mais próxima do leito, observava as amigas. Clara na janela, alternando entre a conversa e o lado de fora. Sofia achava Clara parecida com um gato, que gosta da boa vida, mas sempre vive o conflito de jogar tudo pro alto e ganhar o mundo, a liberdade. E, por mais que não jogasse tudo pro alto, nunca seria totalmente domesticado. Dora, na cama, obviamente, amarrada ainda, pra não fazer mais nenhuma besteira contra si, abria os olhos e murmurava algo e voltava a dormir. Sofia desconfiava que era seu estratagema pra não enfrentar as amigas, a realidade, enfim a vida. Para Sofia, o problema de tudo isso, da amiga ter querido morrer, era perceber essa vontade mesma de morrer e ficava com medo de que um dia ela mesma sucumbisse a dor e intentasse contra sua própria vida também. Clara não tinha tanta compaixão e da janela procurava por todos os cantos uma justificava um pouco racional pra tudo aquilo. Não conseguia admitir uma coisa daquelas, não tinha pena de Dora, estava brava, estava com raiva, não conseguia entender nada daquilo, era como se suicídio fosse uma palavra estrangeira numa língua sobre a qual Clara não tivesse nenhum conhecimento.

Quando acordou de verdade, Dora encontrou-se sozinha, Clara e Sofia já haviam ido embora. Descansou os olhos nas margaridas perto da janela, onde antes estava Clara. E, depois de alguns segundos, sorriu ao perceber que, na falta de um vaso, as amigas haviam posto o ramalhete de flores na comadre. Seu primeiro sorriso "pós-mortis" fora em razão da brincadeira das amigas. E de leve, bem de leve, pelas flores, pelo sorriso e pelas amigas, realizava em si a vontade de viver novamente.

Thursday, June 26, 2003

Tua palavra

Sonhei que estava lançando um livro e via você passar pela vitrine da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Você ficava surpreso e folheava meu livro com cara de "eu achei que iam me publicar antes de você". E com toda arrogância do mundo me estendia uma mão e dizia "Lembra de mim?".

(E eu lembrava de cada palavra tua neste interlúdio onírico, tudo parava e eu olhava pra trás e via quilômetros de páginas escritas, imaginando tua mão direita com a caneta passando por cima de tudo, forte, decidida, assertiva, você de óculos, vista cansada, resistindo e escrevendo, escrevendo, escrevendo, e eu do tamanho de um botão caminhando nas entrelinhas...)

Pra responder no mesmo tom, apertava sua direita firme e penetrava as lentes de seus óculos com cara de "tá vendo, eu consegui".

Sem nem disfarçar seus ares de "não vou ler isso nem no banheiro" me oferecia um exemplar, puxava uma caneta do bolso, desafiando-me a autografá-lo. E, bem na hora em que ia começar a escrever uma dedicatória, me lembro que era tudo pra você, que o livro eu tinha escrito pra você, pra te provar que eu era capaz. E tudo se desfazia de repente: livraria, livros, inclusive o Conjunto Nacional, e eu voltava a ser uma mera leitora sua. Nada além de um par de olhos a mais e nos fitávamos naquele sonho, como foi na realidade, sem palavras que coubessem no silêncio cursivo, (esse talvez seja o mal de quem se lê, de quem se escreve). Nem um pingo num "i" se ouvia. E, sem querer, te revelava telepaticamente que foi logo no teu primeiro texto que, com o poder da tua vírgula meticulosa, meu coração parou e, no meio do teu aposto, resolveu cair de amores por você.

Wednesday, June 25, 2003

Fronteira

(...) "Os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.
Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?

(...) "Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que apenas me limitei a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além do meu eu).

(...)"O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo."

Milan Kundera in A insustentável leveza do ser
Con Lexotan es posible!

-- Juliana!
Saí do meu transe momentâneo e encontrei dois braços vindo de encontro a mim com um comprimidinho e um copinho d'água. Minhas mãos apressaram-se em estender-se e aceitar a oferta. No entanto, puxei o breque de mão e, antes de mesmo tocar na pequena e misteriosa pílula, perguntei:
-- O que que é isso?
Nesse exato momento todos os meus neurônios e sinapses gritavam pra eu calar a boca e mandar goela abaixo o comprimido, seja lá o que fosse, dane-se, a gente quer remedinho!
-- É um calmante.
Juro por Deus que hesitei. Mas nessa hora todos os meus nervos aclamavam por piedade, minha boca esboçava um sorriso involuntário e minhas mãos foram mais rápidas. Antes que eu pudesse refletir (refletir pra quê? pra quê? ô mulher complicada, toma o calmante e pronto!), antes de eu perguntar qual era o princípio ativo, se havia efeitos colaterais (efeito colateral de calmante? tenha santa paciência! calmante é uma pílula feita de efeitos colaterais! pra quê tanta frescura, toma logo!), a direita arremessou a pílula pra dentro da boca, a esquerda deu cobertura com a água e meu primeiro calmante começava sua jornada apaziguadora por dentro de mim. Em poucos minutos todas as minhas células regozijavam com esta calma sintética, deliciosa, quando um pensamento sabotador apareceu. Será que poderia voltar guiando pra casa?

Ah... não durou nem 30 segundos essa preocupação e de alguma maneira, sobre a qual não guardo registros, eu voltei guiando pra casa e quando percebi que estava um pouquinho mais consciente morri de dar risada.

Tuesday, June 17, 2003

Indivíduos adjacentes: Dora.

Com a mala pesada atrasando seu passo apertado, atravessava o aeroporto. Enquanto o corpo avançava pelas esteiras rolantes, a mente procurava em vão uma razão pra ficar. Era Dora que, lá fundo, não queria resistir. Estava louca pra deixar barato, pra fraquejar de novo, era mais fácil, rápido e indolor.
Já estava no táxi agora, o aeroporto ficara pra trás. Recolocou tudo no armário correndo, sentou no sofá, olhou pela janela, ligou a televisão, o rádio e o liquidificador. Fez uma vitamina, rasgou a passagem. E no meio do mar de inconsciência que silenciava sua cabeça, seu estômago manifestou-se, não sabia bem a favor de quê, mas o corpo ainda queria lutar. O seu ventre pedia algo, há muito tempo. Dora, sem querer ouví-lo, e para silenciar de vez as entranhas intrometidas, tomou 50 cápsulas de não-sei-o-quê.

Quando acordou da lavagem estomacal, de infeliz tinha se feito louca: a vida, da qual havia feito pouco caso, doía por todo o seu corpo. E o pouco de autonomia que uma morta-viva poderia ter, lhe tiravam agora, amarrada na cama, com alimentação intravenosa. Sentiu nojo de si por provocar pena nos outros e até quis brigar. Foi então que o psiquiatra entrou no quarto e animou a família. Disse que ela iria ter alta logo, enquanto Dora cuspia longe o coquetel de anti-depressivos que tentavam lhe dar.

Friday, June 13, 2003

De volta ao presente (ou Tupperware fedido)

Cheguei em casa morrendo de sede. Ao abrir a geladeira, o odor gélido porém fedido me avisava que eu tinha ficado longe de casa tempo demais.

Era um tupperware com sopa de cenora e repolho.

E, como tudo que é Passado, devia ter ficado lá, longe, preso no tempo. Deveria ter se esgotado inteiramente naquele dia longínquo em que fiz a sopa para jantar. Mas, como todo Passado que não se esgotou completamente, que sobrou quietinho no fundo da nossa gelada memória, chega uma hora em que é necessário lidar com os restos que não tivemos força, apetite ou coragem pra digerir antes.

Ninguém escapa do Tupperware da Memória. É preciso confrontar os restos temidos e o cheiro terrível daquilo que quisemos esconder, esquecer ou simplesmente guardar com intenções pouco claras.

Sempre que guardamos esses pedaços incômodos da nossa história como quem não quer nada, devemos saber que o Passado, a qualquer momento, irá se impor, com o risco de contaminar o presente também. E, se buscamos voluntariamente o Passado, temos que enfrentar o cheiro de velho e de podre que ele tem.

(Juro que eu pensei em tudo isto ao chegar de Boston, enquanto de fato lavava o tupperware fedido. Vai ver que o odor de transubstanciação da matéria me subiu a cabeça...)

Thursday, June 12, 2003

Almanaque

Grandes merdas ter Dia dos Namorados.

Toda sexta e sábado é Dia dos Solteiros!

(E segunda, terça, quarta, quinta e até Domingo também.)
Indivíduos transversais

Amélia estava só, no seu canto e um belo dia engajou numa conversa sobre os anos 80 com Laércio. Morreram de rir juntos com recordações distantes do "Pogobol", do "Gênius", "Merlin" e enfim todo o rol de brinquedos produzidos naquela década emblemática.

E o apelo do passado semelhante dos dois, a identificação que um teve com o outro, fez surgir o interesse mútuo.

O passado é assim, irresistível. É culpa desse conforto universal que se sente quando se encontra em outra pessoa experiências semelhantes e coincidências e piadas e lembranças. Dá aquele gostinho de "poderíamos ter nos conhecido há tanto tempo"... E foi isso que Amélia disse num suspiro:
"Laércio, será que eu já não te vi antes, em algum momento há...sei lá, 15 anos atrás?"

Laércio entendeu tudo. E a partir dali fez o contato mais intenso, diário e escrito. Escreviam-se sempre pela necessidade imposta pela distância. Nem estavam tão distantes assim, mas os dois sabiam que esta distância era condição sinequânon daquela amizade. Pois as alianças que usavam, cada um em seu dedo anular esquerdo, tinham seu par em outra casa, em outra mesa, em outra relação. Mas não convém falar de algo que Amélia e Laércio não estavam prontos pra enfrentar. Nem sabiam se queriam enfrentar.

"Ah, Amélia...se eu tivesse te visto antes..."

Wednesday, June 04, 2003

Indivíduos adjacentes: Clara e Sofia

Sofia, certa manhã, quase bateu o carro, perdida no mundo das idéias e entendeu o que era reação em cadeia. Os carros, os sonhos e puft!: a realidade. Foi procurar um psicólogo.
Chegou no consultório um dia e deu de cara com dois olhos vermelhos e um nariz inchado. E aquela pessoa soluçante pediu-lhe um lenço. Sofia sorteou o pacote de kleenex de dentro da bolsa e estendeu para a moça do outro lado da sala de espera.
-- Tem dia que é assim (glup)... Meu nome é Clara (glup).

Ver Clara chorando copiosamente naquela saleta, onde era impossível olhar para outro lado ou ignorar sua tristeza, trouxe um certo alívio a Sofia. Ela comprovava a dor que também sentia, sem nome, sem razão certa, em outra pessoa. A amizade foi instantânea depois da compaixão de uma pela outra: Clara por revelar-se inteiramente e Sofia por dividir a dor e os lenços. E foi assim.

Tuesday, June 03, 2003

Mundos paralelos, indivíduos adjacentes
- 1a parte -

Clara conheceu Antonio na noite em que tomou seu maior porre. Apaixonou-se por ele alguns minutos antes de misturar as várias taças de vinho tinto com uma batidinha maneira de aguardente. Ele, por sua vez, interessou-se por ela logo na primeira risada escrachada que ela deu e foi mantendo as risadas altas e constantes à base de drinks ao longo da noite. Dançaram, conversaram, riram mas, quando eram quase 8 da manhã, os primeiros raios de sol chegavam com dores de cabeça lancinantes anunciando o fim do porre, a sede e a despedida meio sem jeito.

E foi então que Clara, caída de amores por Antonio, passou semanas grudada no celular. Foi a ressaca mais dura da história.
Cinco semanas depois, quando a esperada ligação chegou, Clara, de pijama vendo Seinfeld, disse, prontamente:
-- Não, obrigada.

Recusou o convite e dormiu abraçada com o orgulho. E Antonio, pra não dizer que perdeu a noite, pegou mais uns 2 numeros de telefones para os quais, obviamente, não tinha intenção nenhuma de ligar.

Algum tempo depois, em áreas distintas da cidade, num sábado ensolarado que tinha tudo pra dar certo, os dois levavam "um cano" de terceiros e pensavam se isso não seria um karma recém adquirido por eles, cada qual em seu canto da história.