Cri cri, cri cri. (meu celular tocando)
- Fala, criatura...
- Ai, precisa falar assim comigo?
- Como é que vc consegue me encontrar sempre, hein, Clara?
- Sei lá, sempre que eu pego o telefone e disco qualquer coisa eu encontro você. Deve ser algum recurso cênico ficcional, sei lá.
- E aí? Como anda a Sumatra? Ninguém entendeu seu email... Você tá feliz ou triste?
- Então, tipo assim, eu tava ligando pra você por isso... eu, eu, eu não sei direito...
- E?
- E aí eu queria que você me dissesse o que é isso, porque eu não sei. Pronto, falei. Não sei. Sei lá, tá tudo sem sentido, sabe, não sei, não entendo, não consigo ver o sentido dessa história toda, você me entende?
- Mas, Clara, a vida e as histórias são assim. A Odisséia: Ulisses tinha que ir pra Tróia e Penélope tinha que esperar 20 anos. Pronto. Em Otelo, Iago tinha muita inveja, next thing you know, Desdêmona è morta! Sei lá, na novela Vale Tudo, a Maria de Fátima...
- Tá, tá, tá... Mas quando é que eu vou get the big picture, quando é que esse momento vai chegar pra mim, e as coisas todas parecerão se encaixar?
- Minha filha, nessas horas é melhor relaxar e seguir o roteiro...
Friday, May 28, 2004
Thursday, May 27, 2004
Sumatra - 27 de Maio de 2004
As cores, os sabores, os perfumes e os rostos. A Sumatra é linda. E distante. Distante do ontem, do antes... Talvez tenham sido as mais de 20 horas no avião, mas quando cheguei aqui, senti uma elipse temporal inigualável, era como se tudo fosse diferente, tudo novo, completamente novo, nem me lembro mais do passado, nem me lembro de nada. E agora? E agora, e agora, de fato só existe agora mesmo, o já, o instante. E eu não quero perder nem um segundo. Mando mais notícias outra hora.
beijos, Clara.
As cores, os sabores, os perfumes e os rostos. A Sumatra é linda. E distante. Distante do ontem, do antes... Talvez tenham sido as mais de 20 horas no avião, mas quando cheguei aqui, senti uma elipse temporal inigualável, era como se tudo fosse diferente, tudo novo, completamente novo, nem me lembro mais do passado, nem me lembro de nada. E agora? E agora, e agora, de fato só existe agora mesmo, o já, o instante. E eu não quero perder nem um segundo. Mando mais notícias outra hora.
beijos, Clara.
Wednesday, May 26, 2004
Wednesday, May 19, 2004
Tuesday, May 18, 2004
No aeroporto...
- Ei, ei, ei! agora finge que não me conhece, é?
- Ai meu Santo Deus....Que que cê tá fazendo aqui, hein, Clara?
- Tô indo pra Sumatra, atrás do Paulo, lembra dele? Das palavras cruzadas e tal. E você, tá indo pra onde?
- Não te interessa, eu não dou satisfação pra personagem! E deixa de ser boba... Sumatra...você só está aqui no aeroporto, porque eu tô no aeroporto, entendeu? Sua vida nada mais é do que um "spin off" da minha, sacou?
- Ah é, é?
- É.
- Mas, escuta, você está voando de primeira classe?
- Claro que não.
- Pois é, eu estou.
- Com que dinheiro?!
- Que dinheiro? Boa pergunta. Não importa. Minha vida é só história mesmo... Champanhe a bordo, cadeiras que reclinam 180 graus, guardanapos de pano... Afinal de contas são 22 horas de vôo... e eu me permiti essa pequena extravagância ficcional...
- Ai, sua cachorra! Depois, vem me pedir "Deus ex Machina", vem, que você vai ver... Não se esqueça que a escritora, que sou eu, está de férias.
- Ei, ei, ei! agora finge que não me conhece, é?
- Ai meu Santo Deus....Que que cê tá fazendo aqui, hein, Clara?
- Tô indo pra Sumatra, atrás do Paulo, lembra dele? Das palavras cruzadas e tal. E você, tá indo pra onde?
- Não te interessa, eu não dou satisfação pra personagem! E deixa de ser boba... Sumatra...você só está aqui no aeroporto, porque eu tô no aeroporto, entendeu? Sua vida nada mais é do que um "spin off" da minha, sacou?
- Ah é, é?
- É.
- Mas, escuta, você está voando de primeira classe?
- Claro que não.
- Pois é, eu estou.
- Com que dinheiro?!
- Que dinheiro? Boa pergunta. Não importa. Minha vida é só história mesmo... Champanhe a bordo, cadeiras que reclinam 180 graus, guardanapos de pano... Afinal de contas são 22 horas de vôo... e eu me permiti essa pequena extravagância ficcional...
- Ai, sua cachorra! Depois, vem me pedir "Deus ex Machina", vem, que você vai ver... Não se esqueça que a escritora, que sou eu, está de férias.
Saturday, May 15, 2004
Yin Yang
Viajar é maravilhoso para se expandir o repertório dos sonhos. Já no avião, na volta, me divertia com vários de meus amigos, comigo, numa ruela de Genova, todos agasalhados inclusive, de acordo com o frio que fazia. Até o frio estava no sonho! E era gostoso!
Viajar é horrível, porque torna o cotidiano mais chocante, mais feio, mais desprazeroso. Já no avião alemãs liam paperbacks de best-sellers de Danielle Steele, a aeromoça se recusava a me fornecer um outro tijolinho de manteiga e, no aeroporto, até os cachorros - pobres diabos - eram obrigados a trabalhar, conduzindo homens com problema de faro entre bolsas e malas.
E cães trabalhando - ouso dizer - deve estar nas escrituras de Nostradamus como sinal do fim dos tempos. Será que ainda dá tempo de eu tirar férias de novo, antes do mundo acabar?
Viajar é horrível, porque torna o cotidiano mais chocante, mais feio, mais desprazeroso. Já no avião alemãs liam paperbacks de best-sellers de Danielle Steele, a aeromoça se recusava a me fornecer um outro tijolinho de manteiga e, no aeroporto, até os cachorros - pobres diabos - eram obrigados a trabalhar, conduzindo homens com problema de faro entre bolsas e malas.
E cães trabalhando - ouso dizer - deve estar nas escrituras de Nostradamus como sinal do fim dos tempos. Será que ainda dá tempo de eu tirar férias de novo, antes do mundo acabar?
Thursday, May 13, 2004
Shame, shame...
Aqui nos Euá é muito engraçado. Tipo assim, toda noite, toda noite mesmo, sem descanso, o Letterman apresenta quadros ridicularizando o presidente. Tem o "George W's joke that's not really a joke", o "George W pretends to pay attention" e o ótimo "George W tries to say..." alguma palavra qualquer que ele pronuncia de um jeito caipirão e o pessoal tira o maior sarro.
Isso só na CBS. Na NBC, toda noite também tem o Leno que passa os primeiros 15 minutos do seu programa fazendo piadinhas que invariavelmente envolvem o presidente. Fora isso, todo dia tem repórter escrevendo artigos malhando o presidente, o secretário de estado, o vice e tutti quanti. Esses não são engraçados, não, são bem dramáticos, até. E em todos os cantos do mundo mais outros tantos metem a boca nas políticas internacionais deste país no qual me encontro e fazem piada também e tudo a que se tem direito depois de se adquirir e mandar enquadrar o diploma de jornalismo.Mais engraçado ainda é que tem um pessoal que fala bem do cara também. Tem até gente que é a favor ou tem opiniões diversas. E é óbvio que tem gente pra meter o pau nesse pessoal também.
Esse mercadão de peixe é chamado carinhosamente de liberdade de expressão. Que é o orgulho nacional, a tal da Primeira Emenda. E tendo dito isso, meu texto acabava com um monte de palavrões dirigidos ao "efelentíffimo"(copyrights do puragoiaba) mandando ele pra lugares onde o sol não bate porque eu já estou exilada mesmo, dane-se. Mas daí pensei bem, achei que não valia a pena perder a compostura aqui, sendo que eu nem sou do sindicato, nem tenho carteirinha, nem leio o Times... Mas, no fundo, só me resta uma dúvida (porque ficou bem claro pro mundo todo que o presidente tupiniquim manguaça mesmo pois vestiu a carapuça da reportagem do NYT):
Lula, vem cá, conta de novo como foi que vossa "effelênfia" perdeu o mindinho, hein?
E em algum lugar do passado alguém tomou uma caipirinha com dedos do Lula, literalmente.
Isso só na CBS. Na NBC, toda noite também tem o Leno que passa os primeiros 15 minutos do seu programa fazendo piadinhas que invariavelmente envolvem o presidente. Fora isso, todo dia tem repórter escrevendo artigos malhando o presidente, o secretário de estado, o vice e tutti quanti. Esses não são engraçados, não, são bem dramáticos, até. E em todos os cantos do mundo mais outros tantos metem a boca nas políticas internacionais deste país no qual me encontro e fazem piada também e tudo a que se tem direito depois de se adquirir e mandar enquadrar o diploma de jornalismo.Mais engraçado ainda é que tem um pessoal que fala bem do cara também. Tem até gente que é a favor ou tem opiniões diversas. E é óbvio que tem gente pra meter o pau nesse pessoal também.
Esse mercadão de peixe é chamado carinhosamente de liberdade de expressão. Que é o orgulho nacional, a tal da Primeira Emenda. E tendo dito isso, meu texto acabava com um monte de palavrões dirigidos ao "efelentíffimo"(copyrights do puragoiaba) mandando ele pra lugares onde o sol não bate porque eu já estou exilada mesmo, dane-se. Mas daí pensei bem, achei que não valia a pena perder a compostura aqui, sendo que eu nem sou do sindicato, nem tenho carteirinha, nem leio o Times... Mas, no fundo, só me resta uma dúvida (porque ficou bem claro pro mundo todo que o presidente tupiniquim manguaça mesmo pois vestiu a carapuça da reportagem do NYT):
Lula, vem cá, conta de novo como foi que vossa "effelênfia" perdeu o mindinho, hein?
E em algum lugar do passado alguém tomou uma caipirinha com dedos do Lula, literalmente.
Monday, May 10, 2004
Caminhos Cruzados
Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode, de repente, chegar
Quando existe alguém, que tem saudade de alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois
Seja imprescindível chorar
Que tolo fui eu
Que, em vão, tentei raciocinar
Nas coisas do amor
Que ninguém pode explicar
Vem, nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode, de repente, chegar
Quando existe alguém, que tem saudade de alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois
Seja imprescindível chorar
Que tolo fui eu
Que, em vão, tentei raciocinar
Nas coisas do amor
Que ninguém pode explicar
Vem, nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar
Friday, May 07, 2004
Vou me embora para a Liguria, pois là sou amiga do rei...
N. da E.: acentos ao contràrio, devido ao teclado italiano...
A vida é cruel?
Eh nada.
A realidade é dura?
Coisa nenhuma.
A realidade é linda, cheirosa, cheia de flores e cores e plantas. Embebida em molho pesto e vinhos e entrecortada por vielas e estradinhas e muros de pedra de milhares de anos. E gatos e cachorros debruçados nos muros e pàssaros cantando.
A realidade é bem melhor que qualquer sonho que eu jà tive. E eu achava que conhecia a realidade. Mas eu nao conhecia nada. Agora que eu vi a realidade bem de perto, quero ser uma menina boa, muito boa, pra na pròxima encarnaçao voltar em forma de gata aqui na Liguria.
A vida é cruel?
Eh nada.
A realidade é dura?
Coisa nenhuma.
A realidade é linda, cheirosa, cheia de flores e cores e plantas. Embebida em molho pesto e vinhos e entrecortada por vielas e estradinhas e muros de pedra de milhares de anos. E gatos e cachorros debruçados nos muros e pàssaros cantando.
A realidade é bem melhor que qualquer sonho que eu jà tive. E eu achava que conhecia a realidade. Mas eu nao conhecia nada. Agora que eu vi a realidade bem de perto, quero ser uma menina boa, muito boa, pra na pròxima encarnaçao voltar em forma de gata aqui na Liguria.
Tuesday, April 27, 2004
- Sofia, e agora?
- Agora o quê?
- Agora que eu comprei passagem, to indo pra Sumatra, essa loucura toda...
- Ué, mas não era tudo o que vc queria?
- Era, mas eu esqueci até porquê eu queria tudo isso em primeiro lugar.
- Pra mostrar que a sua história pode dar certo.
- É, mas e se der errado?
- Se der errado? ué, mas história é história, a gente não pode ter medo de viver... ou de escrever... ou de contar... sei lá, já estou confusa, primeira pessoa, terceira pessoa, narrador, personagem etc.
- Ai, tô até com saudades da narradora. De ter alguém por trás pra botar a culpa. De esperar alguém escrever o meu destino. Esse negócio de virar narrador-personagem é complicado...
- Agora o quê?
- Agora que eu comprei passagem, to indo pra Sumatra, essa loucura toda...
- Ué, mas não era tudo o que vc queria?
- Era, mas eu esqueci até porquê eu queria tudo isso em primeiro lugar.
- Pra mostrar que a sua história pode dar certo.
- É, mas e se der errado?
- Se der errado? ué, mas história é história, a gente não pode ter medo de viver... ou de escrever... ou de contar... sei lá, já estou confusa, primeira pessoa, terceira pessoa, narrador, personagem etc.
- Ai, tô até com saudades da narradora. De ter alguém por trás pra botar a culpa. De esperar alguém escrever o meu destino. Esse negócio de virar narrador-personagem é complicado...
Friday, April 23, 2004
Tem que dar certo
- Cheguei em casa, chequei a secretária eletrônica e nada. Email: nada. Celular: nada. Desconfiei logo que o fato dele nunca mais ter me ligado só podia ser culpa da narradora da história. Liguei no escritório dele e disse que era a advogada da ex-mulher.
- E ele tem ex-mulher? perguntou Sofia, prestando atenção.
- Sei lá, mas ninguém discute com advogado muito menos se for de ex-cônjuge de colega de trabalho, entendeu?
- E aí?
- Descobri que ele está na Sumatra.
- Sumatra? disse Sofia, com dúvida legítima.
- Sumatra...? disse Dora, com dúvida geográfica.
- É. Comprei uma passagem e tô indo pra lá.
- Hã, como é que é?
- É isso aí, acabou essa brincadeira de amor que não dá certo, tô pegando o avião semana que vem. Vou mesmo, pagar pra ver. E chega de narrador-onisciente! Basta, entendeu, dona escritora?! Da minha história sei eu.
- ...Sumatra...
- Mas Clarinha, o que ele faz hein?
- Não sei, Sofia, ela (apontando pra fora da história) nunca explicou. E a Sumatra fica ao sul da Tailândia, Dora.
- Cheguei em casa, chequei a secretária eletrônica e nada. Email: nada. Celular: nada. Desconfiei logo que o fato dele nunca mais ter me ligado só podia ser culpa da narradora da história. Liguei no escritório dele e disse que era a advogada da ex-mulher.
- E ele tem ex-mulher? perguntou Sofia, prestando atenção.
- Sei lá, mas ninguém discute com advogado muito menos se for de ex-cônjuge de colega de trabalho, entendeu?
- E aí?
- Descobri que ele está na Sumatra.
- Sumatra? disse Sofia, com dúvida legítima.
- Sumatra...? disse Dora, com dúvida geográfica.
- É. Comprei uma passagem e tô indo pra lá.
- Hã, como é que é?
- É isso aí, acabou essa brincadeira de amor que não dá certo, tô pegando o avião semana que vem. Vou mesmo, pagar pra ver. E chega de narrador-onisciente! Basta, entendeu, dona escritora?! Da minha história sei eu.
- ...Sumatra...
- Mas Clarinha, o que ele faz hein?
- Não sei, Sofia, ela (apontando pra fora da história) nunca explicou. E a Sumatra fica ao sul da Tailândia, Dora.
Wednesday, April 21, 2004
Motim
Clara: Liguei, liguei mesmo.
Dora: Você não falou que fui eu que te dei o telefone dela, né?
Clara: Claro que não, não disse nada.
Sofia: Mas como é que você tinha o telefone dela em primeiro lugar, Dora?
Dora: O Agenor, meu marido na história, tinha. Sabe como é que é né, ele é advogado, ela quis saber alguns detalhes sobre direitos autorais, claro que o Agenor deu uma ajuda e tal, e não cobrou nada, mas achei super sem compostura, muquirana, da parte dela, né?
Sofia: Ah, mas você sabe como esses escritores são né...
Clara: Ah é, mas eu falei tudo, tudinho. E o pior é que fiquei sabendo que ela ia dar um sumiço no Paulo. Logo agora que o bonitão me convidou pra ir ao cinema, tudo ia bem...
Sofia: Ela me parece uma daquelas pessoas que usam o pessimismo como mecanismo de defesa, sabe? Tipo, preferem imaginar tudo de ruim, tudo mesmo, porque assim acham que não terão surpresas ruins... sei lá.
Dora: Ah é, tudo tem sempre um porém com ela... preferia estar numa novela do Benedito, da Glória, vocês sabem, sempre acaba em casamento, gravidez, herança... isso daqui não está indo a lugar nenhum.
Sofia: Mas com ela tem sempre esse "quid pro quo". Ela dá com uma mão e toma com a outra...
Clara: E se a gente fizer a história dar certo, hein? Tipo assim, na marra?!
Clara: Liguei, liguei mesmo.
Dora: Você não falou que fui eu que te dei o telefone dela, né?
Clara: Claro que não, não disse nada.
Sofia: Mas como é que você tinha o telefone dela em primeiro lugar, Dora?
Dora: O Agenor, meu marido na história, tinha. Sabe como é que é né, ele é advogado, ela quis saber alguns detalhes sobre direitos autorais, claro que o Agenor deu uma ajuda e tal, e não cobrou nada, mas achei super sem compostura, muquirana, da parte dela, né?
Sofia: Ah, mas você sabe como esses escritores são né...
Clara: Ah é, mas eu falei tudo, tudinho. E o pior é que fiquei sabendo que ela ia dar um sumiço no Paulo. Logo agora que o bonitão me convidou pra ir ao cinema, tudo ia bem...
Sofia: Ela me parece uma daquelas pessoas que usam o pessimismo como mecanismo de defesa, sabe? Tipo, preferem imaginar tudo de ruim, tudo mesmo, porque assim acham que não terão surpresas ruins... sei lá.
Dora: Ah é, tudo tem sempre um porém com ela... preferia estar numa novela do Benedito, da Glória, vocês sabem, sempre acaba em casamento, gravidez, herança... isso daqui não está indo a lugar nenhum.
Sofia: Mas com ela tem sempre esse "quid pro quo". Ela dá com uma mão e toma com a outra...
Clara: E se a gente fizer a história dar certo, hein? Tipo assim, na marra?!
Monday, April 19, 2004
*Ler primeiro o post anterior "Mundos distantes....". E nos arquivos, ler "Mundos paralelos: indivíduos adjascentes".
- Alô.
- É do Poucas e Boas?
- Com quem você gostaria de falar?
- Você que é a escritora? então é com você mesma...
- Quem é?
- Ah, agora vai fingir que não me reconhece? É a Clara.
- Clara... minha personagem? Impossível.
- Impossível nada. Ó, tá me ouvindo? Tô bem aqui, do outro lado da linha.
- Mas eu nunca dou meu celular pra personagens...
- É o seguinte, eu não agüento mais. Primeiro você começou a história toda cheia de estilo, de palavras bacanas, de tramas confusas... quase matou a Dora, botou a Sofia numa deprê profunda e me deixou a ver navios com os meus namoradinhos. Aí apareceu aquele cara das palavras-cruzadas. Muito bacana, o pessoal até elogiou e eu achei que podia ficar tranqüila, que as coisas estavam dando certo e minha história estava chegando ao final feliz. Só que aí, misteriosamente você parou de escrever. E eu nunca beijei o Paulo, nunca!!! Tá me ouvindo?
- Você beijou sim, ficou subentendido.
- Nem vem que não tem, não há beijo subentendido, ou fode ou desocupa a moita. Aliás, por falar nisso...
- Ai, meu São Benedito...
- E tem mais, eu tenho o direito de ser feliz, poxa vida, acho sou uma personagem com potencial pra felicidade, mas esse último texto, pelamordedeus, tá muito ruim... Que história é essa de mar, de sábado de manhã, de se largar no sofá... Pô, tem que dar uma continuidade, eu achava que eu morava em São Paulo. Qual não foi minha surpresa ao me ver nesse tal apartamento com vista pro mar...onde estou, hein?
- Ai, Clara, menina, sabe que eu mesma me pergunto isso diariamente?
- É, mas a história é sobre quem? Eu ou você?
- Alô.
- É do Poucas e Boas?
- Com quem você gostaria de falar?
- Você que é a escritora? então é com você mesma...
- Quem é?
- Ah, agora vai fingir que não me reconhece? É a Clara.
- Clara... minha personagem? Impossível.
- Impossível nada. Ó, tá me ouvindo? Tô bem aqui, do outro lado da linha.
- Mas eu nunca dou meu celular pra personagens...
- É o seguinte, eu não agüento mais. Primeiro você começou a história toda cheia de estilo, de palavras bacanas, de tramas confusas... quase matou a Dora, botou a Sofia numa deprê profunda e me deixou a ver navios com os meus namoradinhos. Aí apareceu aquele cara das palavras-cruzadas. Muito bacana, o pessoal até elogiou e eu achei que podia ficar tranqüila, que as coisas estavam dando certo e minha história estava chegando ao final feliz. Só que aí, misteriosamente você parou de escrever. E eu nunca beijei o Paulo, nunca!!! Tá me ouvindo?
- Você beijou sim, ficou subentendido.
- Nem vem que não tem, não há beijo subentendido, ou fode ou desocupa a moita. Aliás, por falar nisso...
- Ai, meu São Benedito...
- E tem mais, eu tenho o direito de ser feliz, poxa vida, acho sou uma personagem com potencial pra felicidade, mas esse último texto, pelamordedeus, tá muito ruim... Que história é essa de mar, de sábado de manhã, de se largar no sofá... Pô, tem que dar uma continuidade, eu achava que eu morava em São Paulo. Qual não foi minha surpresa ao me ver nesse tal apartamento com vista pro mar...onde estou, hein?
- Ai, Clara, menina, sabe que eu mesma me pergunto isso diariamente?
- É, mas a história é sobre quem? Eu ou você?
Friday, April 16, 2004
Mundos distantes: um sábado qualquer.
Clara entrou em casa e largou-se no sofá. A cara enfiada numa almofada, não queria luz do dia, não queria ver nada, queria entregar-se ao filme de sua memória, lembrar-se dos detalhes mais simples de tudo, do gosto de um beijo, das cócegas que sentiu quando aquela mão pousou em sua cintura, e por fim de tudo que acontecera em sua vida até ali, porque Clara, naquele momento, acreditava que tudo, todo erro, todo acerto, toda mudança, toda dor achava sua razão e sua explicação ali, naquela doce manhã de sábado, aquela calma manhã, aquele dia azul, e aquele pássaro pescando no mar em frente a sua casa. Quis controlar-se, mas o peito embargado de sentimentos sem nome, de sensações esquisitas, o frio na barriga, indicavam uma situação que ela conhecia muito bem. Era algo como "o que a planta deve sentir quando abotoa a primeira flor" (Machado de Assis). Colocou uma música. Marisa Monte. Não, Marisa Monte, não. Yo Yo Ma, aquele CD dos tangos. Tango faz muito sentido nessas ocasiões. E o dia passou por ela enquanto uma raíz de esperança, apesar de todo tango, tentava se fincar no solo ressecado de seu coração.
Thursday, April 15, 2004
(...)
Sì, straniero, quando sei giunto,
con angoscia ho sentito
il brivido fatale
di questo mal supremo.
(...)
C'era negli occhi tuoi
la luce degli eroi.
C'era negli occhi tuoi
la superba certezza...
E t'ho odiato per quella...
E per quella t'ho amato,
tormentata e divisa
fra due terrori uguali:
vincerti o esser vinta...
E vinta son... Ah! Vinta,
più che dall'alta prova,
da questa febbre che mi vien da te...
G. Puccini, Turandot
*Leia a tradução nos comments.
Sì, straniero, quando sei giunto,
con angoscia ho sentito
il brivido fatale
di questo mal supremo.
(...)
C'era negli occhi tuoi
la luce degli eroi.
C'era negli occhi tuoi
la superba certezza...
E t'ho odiato per quella...
E per quella t'ho amato,
tormentata e divisa
fra due terrori uguali:
vincerti o esser vinta...
E vinta son... Ah! Vinta,
più che dall'alta prova,
da questa febbre che mi vien da te...
G. Puccini, Turandot
*Leia a tradução nos comments.
Monday, April 12, 2004
E no meio de tanta gente...
De repente um barco no meio da história, no meio do mar. Num domingo gostoso, ensolarado, sem rumo certo, sem pressa. Esse domingo transformou-se numa sexta-feira, noite estrelada, refletida em piscinas iluminadas, em líquidos coloridos em copos de falso cristal. Agora pressa, agora rumo definido, um beijo, ressonando por todos os lados, espalhando-se na areia, atirando-se ao mar. Um beijo azul enluarado que, como as ondas do mar fingem que terminam mas continuam, e continuam infinitamente, pela noite adentro, pela vida afora. Mas agora era manhã e uma gaivota caçava, inaugurando o sábado. O mar fingia não ter ondas, pra que as risadas e as conversas, que fingiam não ter pressa, pudessem se sobressair. E de repente, de frente aos azuis que se encontravam delimitando uma linha imaginária onde não termina o mar nem começa o céu, eu percebo que isso tudo é só o meio da história.
Tuesday, April 06, 2004
Just the average love story.
Pense comigo: você é um cara normal, nem bonito, nem feio, nem magro, nem gordo, nem alto, nem baixo, nem engraçado, nem muito inteligente... Mas você é muito rico. E fora isso tudo, você resolveu participar de um reality show chamado Average Joe (uma boazuda escolhe um namorado dentre um grupo de caras normais) assumindo suas próprias limitações no campo romântico perante milhões e milhões de telespectadores americanos ávidos por "realidade".
Daí, você está na liderança e, só pra sacanear - porque ninguém vai ganhando reality show assim numa boa, sem comer lesmas vivas, sem pular de veículos em movimento, sem passar por maus bocados - a produção introduz na brincadeira um grupo de, como dizer, modelo-manequim-ator Joes, pra concorrerem com os average-men. E você é o finalista do grupo dos normais, disputando o coração da solteirona com um projeto de Brad Pitt. Ok, quem vocês acham que a moçoila escolheu, hein?
É claro que foi o bonitão. Ué, o que vocês esperavam de uma cocota que se sujeita a isso em televisão nacional?
Mas o país inteiro (formado por average joes assumidos) tomou as dores do rapaz rejeitado e quiseram lhe fazer justiça. Average Joe 2 - Adam returns!!! E o tal Adam passou os últimos meses com umas vinte gatinhas, se divertindo de montão. Sob o pretexto de escolher uma namorada, beijou todas, tirou casquinha em tv nacional, fez tudo o que tinha direito. Afinal, leitor, se fosse você, você também não faria a festa?
No final, sobraram duas: Rachel e Sam. Uma bonitinha, meiguinha, ajeitadinha, inteligentinha, apaixonadinha. A outra charmosona, super fashion, super produzida, super maquiada, super dissimulada, super sabichona.
Vocês podem ouvir o rufar de tambores? Não? Nem eu. Não teve suspense nenhum. É claro que ele escolheu a segunda, a peruona da Sam. Se você é um average Joe que já assumiu publicamente que tem problemas para arranjar namoradas, você, em sã consciência, vai escolher a average jane pra namorar, quando te dão a chance de pegar aquela que é, sempre foi, muita areia pro seu caminhãozinho? Não, né. E eles partiram num jatinho juntos, tudo bem produzidão, bem "fachada", bem á là reality show.
Moral da história? Tá tudo ao contrário. Tudo.
Daí, você está na liderança e, só pra sacanear - porque ninguém vai ganhando reality show assim numa boa, sem comer lesmas vivas, sem pular de veículos em movimento, sem passar por maus bocados - a produção introduz na brincadeira um grupo de, como dizer, modelo-manequim-ator Joes, pra concorrerem com os average-men. E você é o finalista do grupo dos normais, disputando o coração da solteirona com um projeto de Brad Pitt. Ok, quem vocês acham que a moçoila escolheu, hein?
É claro que foi o bonitão. Ué, o que vocês esperavam de uma cocota que se sujeita a isso em televisão nacional?
Mas o país inteiro (formado por average joes assumidos) tomou as dores do rapaz rejeitado e quiseram lhe fazer justiça. Average Joe 2 - Adam returns!!! E o tal Adam passou os últimos meses com umas vinte gatinhas, se divertindo de montão. Sob o pretexto de escolher uma namorada, beijou todas, tirou casquinha em tv nacional, fez tudo o que tinha direito. Afinal, leitor, se fosse você, você também não faria a festa?
No final, sobraram duas: Rachel e Sam. Uma bonitinha, meiguinha, ajeitadinha, inteligentinha, apaixonadinha. A outra charmosona, super fashion, super produzida, super maquiada, super dissimulada, super sabichona.
Vocês podem ouvir o rufar de tambores? Não? Nem eu. Não teve suspense nenhum. É claro que ele escolheu a segunda, a peruona da Sam. Se você é um average Joe que já assumiu publicamente que tem problemas para arranjar namoradas, você, em sã consciência, vai escolher a average jane pra namorar, quando te dão a chance de pegar aquela que é, sempre foi, muita areia pro seu caminhãozinho? Não, né. E eles partiram num jatinho juntos, tudo bem produzidão, bem "fachada", bem á là reality show.
Moral da história? Tá tudo ao contrário. Tudo.
Thursday, April 01, 2004
Thanks, Mr. Porter.
As Dorothy Parker once said
To her boyfriend, "fare thee well"
As Columbus announced
When he knew he was bounced,
"It was swell, Isabel, swell"
As Abelard said to Eloise,
"Don't forget to drop a line to me, please"
As Juliet cried, in her Romeo's ear,
"Romeo, why not face the fact, my dear"
It was just one of those things
Just one of those crazy flings
One of those bells that now and then rings
Just one of those things
It was just one of those nights
Just one of those fabulous flights
A trip to the moon on gossamer wings
Just one of those things
If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down
So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things
Tava faltando uma letrinha de música, porque blog que é blog, tem que ter. Sempre me pego pensando como sou muito comum mesmo... o que eu sinto, todo mundo já sentiu antes. E, mais que isso, já escreveram sobre isso, já foi musical da Broadway, já tá manjadíssimo e eu aqui, querendo inventar moda. Ah, just one of those things...
To her boyfriend, "fare thee well"
As Columbus announced
When he knew he was bounced,
"It was swell, Isabel, swell"
As Abelard said to Eloise,
"Don't forget to drop a line to me, please"
As Juliet cried, in her Romeo's ear,
"Romeo, why not face the fact, my dear"
It was just one of those things
Just one of those crazy flings
One of those bells that now and then rings
Just one of those things
It was just one of those nights
Just one of those fabulous flights
A trip to the moon on gossamer wings
Just one of those things
If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down
So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things
Tava faltando uma letrinha de música, porque blog que é blog, tem que ter. Sempre me pego pensando como sou muito comum mesmo... o que eu sinto, todo mundo já sentiu antes. E, mais que isso, já escreveram sobre isso, já foi musical da Broadway, já tá manjadíssimo e eu aqui, querendo inventar moda. Ah, just one of those things...
Wednesday, March 24, 2004
Ah, insensatez...
... que você fez... coração mais sem cuidado...
O que você fez? o que foi fazer dessa vez? Levanta. Do chão não passa.
Aprender a andar de bicicleta foi tão difícil. Mais difícil do que qualquer outra coisa que eu tenha aprendido depois. Na verdade, parecia fácil. Parecia muito mais simples. Até papai tirar a rodinha de aprendiz de um lado e introduzir o primeiro grande desafio a minha vida. E o primeiro sofrimento por antecipação também: se uma rodinha saiu é porque a outra vai ser removida também. (Acho que devo ter pedido a Deus, por favor, manter esse dia bem longe de mim. Sei lá, tomara que papai esqueça e deixe a rodinha aí até eu estar velha, bem velha, com uns 16 anos.)
Adeus à segunda rodinha, alô para a realidade, sem corda de segurança, sem rede protetora, sem nada pra te segurar.
É inevitável: você vai cair.
E cair não é nem de longe o maior de seus problemas.
O que você fez? o que foi fazer dessa vez? Levanta. Do chão não passa.
Aprender a andar de bicicleta foi tão difícil. Mais difícil do que qualquer outra coisa que eu tenha aprendido depois. Na verdade, parecia fácil. Parecia muito mais simples. Até papai tirar a rodinha de aprendiz de um lado e introduzir o primeiro grande desafio a minha vida. E o primeiro sofrimento por antecipação também: se uma rodinha saiu é porque a outra vai ser removida também. (Acho que devo ter pedido a Deus, por favor, manter esse dia bem longe de mim. Sei lá, tomara que papai esqueça e deixe a rodinha aí até eu estar velha, bem velha, com uns 16 anos.)
Adeus à segunda rodinha, alô para a realidade, sem corda de segurança, sem rede protetora, sem nada pra te segurar.
É inevitável: você vai cair.
E cair não é nem de longe o maior de seus problemas.
Tuesday, March 16, 2004
De noite na cama
At night in my bed... tossing and turning. I tried to go to sleep early enough so that I would be transported immediately into my dreams and maybe postpone my usual revolvings around the same subject, compositions about the same theme, the same questions, the same doubts. And finally, at 5am, as the day arrived, after my brain was blank of thoughts and the eyes popping open with the light of the early morning, the only question dawning in me was why the hell did I have the pasta with the hot tomato sauce?!
And I kept looking for answers I did not have and the sun kept on rising regardless of the last remains of the night he was stealing from me.
Escuta, dona escritora, dá pra parar de fazer nossos 'olhos leitores' de penico, hein? Ninguém quer ficar lendo essas ladainhas, manda texto de verdade aí por favor.
Oh please, you have to allow me my moments of mental masturbation here, after all, I am just an aspiring writer, trying new things, and well, after all that Sun Tzu left in the world, cut me some slack, let me fail better a little bit.
Bibliografia:
De noite na cama - Caetano ou Marisa Monte
Hot tomato sauce - Cabana Lounge Café
Sun Tzu - The Art of War
Fail Better - Samuel Beckett: "Ever tried, ever failed, no matter. Try again, Fail again, Fail better."
And I kept looking for answers I did not have and the sun kept on rising regardless of the last remains of the night he was stealing from me.
Escuta, dona escritora, dá pra parar de fazer nossos 'olhos leitores' de penico, hein? Ninguém quer ficar lendo essas ladainhas, manda texto de verdade aí por favor.
Oh please, you have to allow me my moments of mental masturbation here, after all, I am just an aspiring writer, trying new things, and well, after all that Sun Tzu left in the world, cut me some slack, let me fail better a little bit.
Bibliografia:
De noite na cama - Caetano ou Marisa Monte
Hot tomato sauce - Cabana Lounge Café
Sun Tzu - The Art of War
Fail Better - Samuel Beckett: "Ever tried, ever failed, no matter. Try again, Fail again, Fail better."
Friday, March 05, 2004
Nome-não
De todas as coisas às quais se pode dar nomes, as mais importantes são aquelas que palavras não descrevem nem alcançam. Aquilo tudo que está no vácuo dos nomes, onde o som não se dissipa, onde abrimos a boca inutilmente e ficamos sem fala no meio do liquidificador das nossas emoções, um barulho ensurdecedor dos sentimentos transbordando e a gente sem saber como explicar.
Tem amor, tem dor, tem saudades (que, aliás, só tem na nossa língua), tem inveja, raiva e ciúmes. Mas tem um buraco no alto do estômago, uma dorzinha meio gostosa, meio esquisita, como se fossem cócegas, e isso não tem nome. Tem também aquele vaziozão no meio do peito que, quando a gente respira, até chega a doer. E aquela sensação de refluxo na garganta, tipo um soluço ao contrário. Sei lá como chamar essas coisas, elas desabrocham sem nome tão dentro da gente. Mas, na maioria das vezes, a gente nem quer saber como aquilo se chama, porque ou estamos muito felizes e não importa, ou estamos tristes e só queremos esquecer.
E, baseando-me nisso tudo é que eu digo que não sei o que estou sentindo.
C.Q.D.
Tem amor, tem dor, tem saudades (que, aliás, só tem na nossa língua), tem inveja, raiva e ciúmes. Mas tem um buraco no alto do estômago, uma dorzinha meio gostosa, meio esquisita, como se fossem cócegas, e isso não tem nome. Tem também aquele vaziozão no meio do peito que, quando a gente respira, até chega a doer. E aquela sensação de refluxo na garganta, tipo um soluço ao contrário. Sei lá como chamar essas coisas, elas desabrocham sem nome tão dentro da gente. Mas, na maioria das vezes, a gente nem quer saber como aquilo se chama, porque ou estamos muito felizes e não importa, ou estamos tristes e só queremos esquecer.
E, baseando-me nisso tudo é que eu digo que não sei o que estou sentindo.
C.Q.D.
Monday, March 01, 2004
Apenas uma pausa de mil compassos
Verdade. Pura. Insípida, inodora e incolor. E só. Como disse Machado de Assis, nenhum vinho pode embriagar tanto como a verdade. Mas a que preço? Toda verdade é super faturada, abrimos um crediário, parcelas a perder de vista. Porque para tê-la, há que se pagar pra ver. E eu quero ver, não conheço alternativa pro crediário doloroso da verdade. Mentira, nem de graça. E eu tô vendo a Briga dobrando a esquina na nossa direção, tô vendo a Dor de soslaio esperando sua 'deixa', e a Solidão já está comemorando o gol. De novo, na minha trave, bola fora do destino. Mas eu tô pagando, quero ver jogo. E afinal, a bola respinga e continua rolando. E a gente correndo atrás.
Friday, February 13, 2004
Consolo na Praia
Um desses dias em que somente clichês podem me confortar. A vida é dura, a vida é curta, a vida tem dessas ironias. Deus é pai, Deus é brasileiro e escreve certo por linhas tortas. O Amor é cego, o amor é sofrimento, o amor é uma flor roxa que nasce no coração do trouxa. E o Amor é isso mesmo que você está vendo. Hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo, e segunda-feira ninguém sabe o que será. Mas o tempo cura tudo, tudo passa, tudo tem solução. Dê tempo ao tempo - apesar de a vida ser curta, pode parecer ilógico, mas o coração tem razões que a própria razão desconhece. E só assim, pra levar o dia hoje. E, enfim, um dia depois do outro, a gente vai levando pois o que não tem remédio, remediado está e como vovó dizia, Deus dá o cobertor conforme o frio. E entre cobertor, frio, Deus, remédio, vovó e o tempo, eu fico com beijo na boca. E, pra beijo na boca, ainda bem, não consegui encontrar nenhum clichê.
Trechos incidentais de Carlos Drummond de Andrade
Trechos incidentais de Carlos Drummond de Andrade
Thursday, January 22, 2004
These foolish things...
The few minutes of relaxation before the vigorous stretching of a Yoga class. The spontaneous dripping of my paintbrush staining the paper. The salty smell of the ocean blowing through my window. A good strectch with big wide movements in the middle of the day followed by a reckless yawn. Going home after a long and hard day knowing to find peace and music and the warm shower all to yourself. And singing in the shower at the top of my lungs. The day is over, finally, another day. I lay my head down and let the thought of you linger on into a dream. Because all those little pleasures remind me of you.
Saturday, January 03, 2004
Ai Se Sêsse
Zé da Luz
Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se nóis dois se empareiasse
Se juntim nóis dois vivesse
Se juntim nóis dois morasse
Se juntim nóis dois drumisse
Se juntim nóis dois morresse
Se pro céu nóis assubisse
Mas porém se acontecesse, de São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu com eu insintisse
Prá que eu me arresouvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Távez que nóis dois ficasse
Távez que nóis dois caisse
E o céu furado arriasse
E as virgem toda fugisse
Começando o ano com Cordel.
Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se nóis dois se empareiasse
Se juntim nóis dois vivesse
Se juntim nóis dois morasse
Se juntim nóis dois drumisse
Se juntim nóis dois morresse
Se pro céu nóis assubisse
Mas porém se acontecesse, de São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu com eu insintisse
Prá que eu me arresouvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Távez que nóis dois ficasse
Távez que nóis dois caisse
E o céu furado arriasse
E as virgem toda fugisse
Começando o ano com Cordel.
Wednesday, December 31, 2003
Hic et Nunc
Quero terminar esse ano sintonizada no barulho das ondas mar, no cheiro de terra molhada de chuva, numa manhã de inverno, no piloto anunciando pelo rádio que chegamos ao nosso destino (seja lá qual o destino que escolhemos - mas, sim, chegamos! - corre lá pra fora e vai buscar o que te espera).
Quero terminar o ano logo, chega, basta, quero o novo, e que o passado passe rápido saia do caminho pra que o novo venha e tomara que a gente erre uns cheques por aí pra rir e lembrar do que passou. Quero o novo agora, porque o agora é que é importante. Hoje é nosso. Amanhã pertence só a ele mesmo, aposto que Deus decide tudo na última hora, como todo bom brasileiro.
E chega de prometer bobagens de fim de ano, de jurar fazer dieta, entrar na academia e coisas do gênero. Faço um pacto com o prazer. Prazer simples com todos os verbos de ligação: serespaperconfi do agora. E, pelo caleidoscópio do desconhecido, contemplo o caos com sede e fome de instante, de hic et nunc. Quero que ele me envolva como o mar. Contagem regressiva pro agora e sempre:
10, Barulho das ondas do mar;
9, cheiro de chuva numa manhã de inverno;
8, "aqui é o comandante, sejam bem-vindos ao seu destino!"
7, quadrados de sol tatuados no chão da sala de manhã;
6, serespaperconfi;
5, hic et nunc;
4, pé direito, calcinha nova;
3, prazer;
2, caleidoscópio,
1, Deus.
Quero terminar o ano logo, chega, basta, quero o novo, e que o passado passe rápido saia do caminho pra que o novo venha e tomara que a gente erre uns cheques por aí pra rir e lembrar do que passou. Quero o novo agora, porque o agora é que é importante. Hoje é nosso. Amanhã pertence só a ele mesmo, aposto que Deus decide tudo na última hora, como todo bom brasileiro.
E chega de prometer bobagens de fim de ano, de jurar fazer dieta, entrar na academia e coisas do gênero. Faço um pacto com o prazer. Prazer simples com todos os verbos de ligação: serespaperconfi do agora. E, pelo caleidoscópio do desconhecido, contemplo o caos com sede e fome de instante, de hic et nunc. Quero que ele me envolva como o mar. Contagem regressiva pro agora e sempre:
10, Barulho das ondas do mar;
9, cheiro de chuva numa manhã de inverno;
8, "aqui é o comandante, sejam bem-vindos ao seu destino!"
7, quadrados de sol tatuados no chão da sala de manhã;
6, serespaperconfi;
5, hic et nunc;
4, pé direito, calcinha nova;
3, prazer;
2, caleidoscópio,
1, Deus.
Wednesday, December 17, 2003
Penelopéia
Penélope espera, há milhares de anos, lá às margens da Odisséia que Homero impôs a Ulisses. Passa os dias tricotando e as noites desfazendo o xale, tudo isto para evitar ter que se casar de novo (ela deve ter medo de que algum oráculo tire dela outro marido, um só já está mais do que bom). E assim, fazendo e desfazendo seus dias, ela engana o tempo, perde a noção das horas, da espera. Tanto que, "de repente", 20 anos depois, Ulisses resolve voltar - posso até ver Penélope de braços cruzados batendo o pezinho na areia da orla de Ítaca, torcendo o nariz e, desconfiada, pede pra ele provar que é ele mesmo. Sabia que era seu marido e que aquele era o momento pelo qual havia tricotado e destricotado 20 anos mas, peraí, acha que é fácil, que é só ir dizendo que é Ulisses e ir levando uma esposa fiel e uma ilha grega assim de bandeja?
Tá aqui teu arco, vamos, atire uma flecha. Prove que é você.
Ele sequer discute. Só ele conseguia dobrar seu arco. Só ela conseguia dobrar Ulisses. Pega o arco, atira uma flecha (aliás várias e mata todos os pretendentes com a ajuda do filho Telêmaco e da Deusa Atena).
Sou eu.
Não importava o cansaço, os anos que passaram, ele tinha que dar prova de estar a altura do passado e da espera e de Penélope.
Tanta coisa aconteceu na sua ausência.
Imagino agora Ulisses revolvendo os olhos enquanto images de cíclopes, deusas ciumentas, deuses furiosos, naufrágios e a guerra de Tróia inteira passam por sua cabeça. Irônico, mas, quem volta tem que se preparar pra aventura do reencontro. Há perigos demais na ausência também. E aventura do lado de fora, do desconhecido, pode ser equivalente a aventura de dentro, de quem espera. Porque o equilíbrio da história toda está em Penélope, que teve o destino selado pelo dever de Ulisses de ir à Guerra. Ele tinha que ir, portanto ela tinha que esperar.
Por fim, arrepende-se aquele que não empreende, não tenta, seja uma Odisséia, ou seja tricô. E haja novelo...
Tá aqui teu arco, vamos, atire uma flecha. Prove que é você.
Ele sequer discute. Só ele conseguia dobrar seu arco. Só ela conseguia dobrar Ulisses. Pega o arco, atira uma flecha (aliás várias e mata todos os pretendentes com a ajuda do filho Telêmaco e da Deusa Atena).
Sou eu.
Não importava o cansaço, os anos que passaram, ele tinha que dar prova de estar a altura do passado e da espera e de Penélope.
Tanta coisa aconteceu na sua ausência.
Imagino agora Ulisses revolvendo os olhos enquanto images de cíclopes, deusas ciumentas, deuses furiosos, naufrágios e a guerra de Tróia inteira passam por sua cabeça. Irônico, mas, quem volta tem que se preparar pra aventura do reencontro. Há perigos demais na ausência também. E aventura do lado de fora, do desconhecido, pode ser equivalente a aventura de dentro, de quem espera. Porque o equilíbrio da história toda está em Penélope, que teve o destino selado pelo dever de Ulisses de ir à Guerra. Ele tinha que ir, portanto ela tinha que esperar.
Por fim, arrepende-se aquele que não empreende, não tenta, seja uma Odisséia, ou seja tricô. E haja novelo...
Thursday, December 04, 2003
"... in the winter, when it drizzles..."
- Or "Things I learned in France" -
It was cold and rainy and if we had scientific information on the pluviometric conditions, I bet Paris would have been the rainiest city in all Europe during those 5 days. But I did not notice the rain and the cold until Sunday, the last day, the day we always fear and want to avoid. But there's no avoiding, you wake up and the first thing to cross your mind is "it's the last day". It's the day you take pictures like crazy, in desperation of keeping memories clearer and not forgetting any detail. The Métro station, the street of the hotel, the street signs - even the street signs are so much more charming....
Breathtaking. Gray days don't interfere with the colors and nuances of the City of Light. In fact, they bring out the true pale yellowish tone on the old buildings, the light green on the copper statues becomes shinier and the excessive white, cloudy white, offers more contrast against all the other colors.
There's something about the wind blowing hats and shaking the fringy end of the colorful scarves, people in long coats, gloves, hats... and after all the cold provides a constant excuse to drink wine - to warm up, to warm up!
It's so easy getting lost in that city, going around the block the wrong way, jumping out of the train on the wrong station, because nothing looks wrong, no métro station seems to be too far away, and right around the corner, au coin de la rue, there's a view to l'Opera, La Tour Eiffel, a crepérie, a café or an enticing soap shop.
At night, from a high floor in a high tower, the most beautiful view of the city - enhanced by early Christmas lights, on top of all the lights and cars and streets, looking like shiny blood vessels. There was I, sitting right in between the Eiffel Tower and Les Invalides, above Paris. It all happened so fast... I took another sip of my 'chocolate chaud', grateful for being there, for being able to enjoy every second, every color, every taste, every smell.
But in a blink, it was already Sunday and it looked much colder and rainier. Not even sweater # 4 together with coat # 2 and scarf # 1 could keep me warm. Beauty has the strange effect of bringing out sadness too. And that's when I found out the worst thing about Paris: saying good-bye. But french people know better and that's why in France they say...
'Au revoir' -- I thought. Yeah, 'til we see each other again.
N. da E.: queridos leitores, esse post vai em inglês devido a visitas internacionais que estamos aguardando. (No melhor estilo "build a field and they will come"!)
It was cold and rainy and if we had scientific information on the pluviometric conditions, I bet Paris would have been the rainiest city in all Europe during those 5 days. But I did not notice the rain and the cold until Sunday, the last day, the day we always fear and want to avoid. But there's no avoiding, you wake up and the first thing to cross your mind is "it's the last day". It's the day you take pictures like crazy, in desperation of keeping memories clearer and not forgetting any detail. The Métro station, the street of the hotel, the street signs - even the street signs are so much more charming....
Breathtaking. Gray days don't interfere with the colors and nuances of the City of Light. In fact, they bring out the true pale yellowish tone on the old buildings, the light green on the copper statues becomes shinier and the excessive white, cloudy white, offers more contrast against all the other colors.
There's something about the wind blowing hats and shaking the fringy end of the colorful scarves, people in long coats, gloves, hats... and after all the cold provides a constant excuse to drink wine - to warm up, to warm up!
It's so easy getting lost in that city, going around the block the wrong way, jumping out of the train on the wrong station, because nothing looks wrong, no métro station seems to be too far away, and right around the corner, au coin de la rue, there's a view to l'Opera, La Tour Eiffel, a crepérie, a café or an enticing soap shop.
At night, from a high floor in a high tower, the most beautiful view of the city - enhanced by early Christmas lights, on top of all the lights and cars and streets, looking like shiny blood vessels. There was I, sitting right in between the Eiffel Tower and Les Invalides, above Paris. It all happened so fast... I took another sip of my 'chocolate chaud', grateful for being there, for being able to enjoy every second, every color, every taste, every smell.
But in a blink, it was already Sunday and it looked much colder and rainier. Not even sweater # 4 together with coat # 2 and scarf # 1 could keep me warm. Beauty has the strange effect of bringing out sadness too. And that's when I found out the worst thing about Paris: saying good-bye. But french people know better and that's why in France they say...
'Au revoir' -- I thought. Yeah, 'til we see each other again.
N. da E.: queridos leitores, esse post vai em inglês devido a visitas internacionais que estamos aguardando. (No melhor estilo "build a field and they will come"!)
Wednesday, December 03, 2003
Infinito Despertar
No meu reino o Sol estaria sempre nascendo naquela janela enorme, sobre o mar, à direita da nossa cama. Quem sabe, fossem precisos mais sóis, não somente um, para manter a constante nascente vermelha, rosada, alaranjada e depois dourada e quente. Então, os meus sóis passeariam no céu, livres, pondo-se lá trás, do lado onde não há janelas, e nós não nos importaríamos, porque de frente pra nós era um dia infinito, brilhante, de águas calmas, cheiro de domingo, e a penugem loira do teu cangote emoldurando minha vista, reluzindo os meus sóis, fazendo cócegas no meu nariz. No meu reino só existiria um dia, apenas aquele amanhecer constante, doze sóis, a nossa cama, a nossa janela, o teu cangote, a água calma, o horizonte. E se o cansaço batesse e quiséssemos dormir, asas aveludadas de pássaros gigantes tomariam o céu e esconderiam os sóis com rasantes sobre o mar. E, à meia luz, sonharíamos juntos com cidades novas, outras línguas, horizontes mais distantes do que aquele à nossa janela. E no reino dos sóis nascentes, nós acordaríamos eternamente, nossas sombras projetadas, superpostas, escorrendo pelo chão, esticando-se pelas paredes, teu corpo e meu corpo tatuados naquele quarto, o único quarto do único dia. Lá no meu reino do despertar infinito.
Monday, November 17, 2003
-- Vira esse coração pra lá que eu não quero pegar essa doença, não! E nem vem que não tem. Próxima vez que você bater na minha porta eu digo não. Comigo não, violão!
Mas quem disse que a gente tem escolha? E o temido bacilo da vida, do amor, da entrega incondicional viaja no ar e pode ser transmitido por aperto de mão, abraço, copos compartilhados, saliva compartilhada, alface mal lavada, água não fervida, carne mal cozida e até em banheiros públicos. Too late. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Mas quem disse que a gente tem escolha? E o temido bacilo da vida, do amor, da entrega incondicional viaja no ar e pode ser transmitido por aperto de mão, abraço, copos compartilhados, saliva compartilhada, alface mal lavada, água não fervida, carne mal cozida e até em banheiros públicos. Too late. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Tuesday, November 11, 2003
Almanaque -
"...Tem horas que escrever é praticamente um movimento peristáltico."
Do recém reencontrado amigo Barizon.
"...Tem horas que escrever é praticamente um movimento peristáltico."
Do recém reencontrado amigo Barizon.
Saturday, November 08, 2003
Ponta da língua
Quero escrever. Quero tanto. Mas não sai. Mora dentro da gente, na ponta da nossa língua, um livro inteiro. E mais uns 30 sonetos numerados com romanos, e mais um monte de coisas que quisemos dizer, que perdemos a chance e que agora fogem da gente, sorrateiras, no silêncio da noite. Custava aparecer aqui e me dar a graça de um texto qualquer?
Thursday, November 06, 2003
Quizas, quizas, quizas...
Me perco em "Ses" e "Serás" infinitos e faço um pensamento em caracol que acaba por me acordar ao invés de me adormecer. E fico horas de frente pra parede escutando os minutos passarem no despertador ao meu lado e os barulhos do mundo esmoecerem lá fora. Por quê esta doença nostálgica de querer aquilo que a gente nunca teve, ainda no passado? É como querer corrigir, voltar lá, anos, dias, meses atrás e ver o que seria, tivesse sido diferente aqui e ali. Mas 'o que seria' já é uma frase errada. Nada que seria, efetivamente foi em tempo algum. É uma conjugação sem potencial, algo que já não aconteceu e o passado já se esgotou. Sofrer pelo passado que passou já me ocupa porcentagens astronômicas... Sofrer aquilo que nem aconteceu, me tira o sono. E sigo tecendo, durante o dia, argumentos, justificativas, razões e certezas. Com o cair da noite, desfaço tudo, sozinha, enrolando meu novelo de "Ses" e "Serás".
Sunday, October 26, 2003
"O maior risco da vida e mais perigoso é amar, que morrer é acabar e amor não tem saída, e pois penado, ainda que seja amado, vive qualquer amador; que fará o desamado, e sendo desesperado de favor?
(...)
Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem querela."
Gil Vicente in O velho da horta, (1508-1515).
(...)
Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem querela."
Gil Vicente in O velho da horta, (1508-1515).
Saturday, October 25, 2003
Considerando...
Ossos do ofício -
Disse Cora Coralina, anos e mais anos atrás, eu era menina, nem entendi direito, que escrever era um sofrimento, uma tortura, e que ela própria não gostava de escrever. Mas, era mais forte que ela. Era um "es muss sein" de sua vida. E sendo assim, não há escapatória. Portanto, ela obedecia o algoz da escrita, e derramava suas linhas. "Ela é uma poetiza", dizia minha mãe, "transforma o triste em bonito, não em alegre, mas faz surgir beleza onde só havia dor".
"Amor volat undique"
A única coisa que ainda me surpreende é essa capacidade masoquista que a gente tem de amar qualquer coisa. Qualquer poça d'água de chuva que molhe nosso sapato novo é objeto de amor, porque de alguma forma tocou nossa vida. Não tenho nada no peito, sequer um soprinho tímido de ar ecoando no oco do meu tórax, e ainda assim, brota ali, na secura, um amor frutífero, frondoso e verde, um oásis na aridez solitária da alma. Verde de insistência, eu diria, não de esperança. Amor não dá esperança nenhuma. O Amor atira a gente do precipício da existência e nos dá a consciência triste do chão duro, de dar com a cara no muro, na porta, de dar murro em ponta de faca. E quebrados em mil pedacinhos, nossa vida, um caos, no fundo do poço, o que nos dói é somente o coração na presença da grandiosidade e da perfeição incompreensíveis de qualquer amor.
Pra não dizer que não falei das pérolas...
Sempre penso na concha teimosa que, cuspida pela maré, agarra-se ao restinho da correnteza e volta lá pra dentro do oceano. Porque é só isso que ela conhece e ama incondicionalmente. Apesar de nunca poder conhecer por inteiro o mar, ela se joga novamente pra dentro da imensidão e continua buscando o seu destino. E o mar, comovido, toda entrega incondicional é fatal, envolve a concha, também amoroso e, em resposta, continua empurrando-a pra areia, tentando mostrar-lhe o outro lado, desafiando-a a permanecer consigo nas incertezas da maré, nas correntes inconstantes, no meio do desconhecido. A concha sabe que viver é assim, é assumir todo risco, não adianta ter mapa, nem guarda-chuva, nem remédio pra dor de cabeça. É uma sucessão de ondas místicas e calmarias efêmeras. Mas, só assim, ganha-se o direito às pérolas.
Certo ou duvidoso?
Essas certezas que a gente acha que tem na vida, tudo mentira. Tudo miragem na aridez do destino. Certeza nenhuma. Vá lá, certeza da morte. Um dia isso tudo acaba. Pois é, era tudo incerto mesmo. Ninguém sabia onde ia dar, mas eventualmente deu nisso, nessas ondas místicas, nessas mãos invisíveis, nessas bússolas, nessas velas alçadas, nessas linhas cruzadas. De repente deu nessas milhas marinhas, nesses fusos horários, nesses meses de solidão. Porque apesar de incerto, é tudo contável, palpável, tangível. A certeza é pura fantasia, já a incerteza vem com réguas, com mapas, com manual e assistência técnica. Quem prefere a miragem, morre sedento. Só encontra água aquele que aprende a navegar o deserto.
Disse Cora Coralina, anos e mais anos atrás, eu era menina, nem entendi direito, que escrever era um sofrimento, uma tortura, e que ela própria não gostava de escrever. Mas, era mais forte que ela. Era um "es muss sein" de sua vida. E sendo assim, não há escapatória. Portanto, ela obedecia o algoz da escrita, e derramava suas linhas. "Ela é uma poetiza", dizia minha mãe, "transforma o triste em bonito, não em alegre, mas faz surgir beleza onde só havia dor".
"Amor volat undique"
A única coisa que ainda me surpreende é essa capacidade masoquista que a gente tem de amar qualquer coisa. Qualquer poça d'água de chuva que molhe nosso sapato novo é objeto de amor, porque de alguma forma tocou nossa vida. Não tenho nada no peito, sequer um soprinho tímido de ar ecoando no oco do meu tórax, e ainda assim, brota ali, na secura, um amor frutífero, frondoso e verde, um oásis na aridez solitária da alma. Verde de insistência, eu diria, não de esperança. Amor não dá esperança nenhuma. O Amor atira a gente do precipício da existência e nos dá a consciência triste do chão duro, de dar com a cara no muro, na porta, de dar murro em ponta de faca. E quebrados em mil pedacinhos, nossa vida, um caos, no fundo do poço, o que nos dói é somente o coração na presença da grandiosidade e da perfeição incompreensíveis de qualquer amor.
Pra não dizer que não falei das pérolas...
Sempre penso na concha teimosa que, cuspida pela maré, agarra-se ao restinho da correnteza e volta lá pra dentro do oceano. Porque é só isso que ela conhece e ama incondicionalmente. Apesar de nunca poder conhecer por inteiro o mar, ela se joga novamente pra dentro da imensidão e continua buscando o seu destino. E o mar, comovido, toda entrega incondicional é fatal, envolve a concha, também amoroso e, em resposta, continua empurrando-a pra areia, tentando mostrar-lhe o outro lado, desafiando-a a permanecer consigo nas incertezas da maré, nas correntes inconstantes, no meio do desconhecido. A concha sabe que viver é assim, é assumir todo risco, não adianta ter mapa, nem guarda-chuva, nem remédio pra dor de cabeça. É uma sucessão de ondas místicas e calmarias efêmeras. Mas, só assim, ganha-se o direito às pérolas.
Certo ou duvidoso?
Essas certezas que a gente acha que tem na vida, tudo mentira. Tudo miragem na aridez do destino. Certeza nenhuma. Vá lá, certeza da morte. Um dia isso tudo acaba. Pois é, era tudo incerto mesmo. Ninguém sabia onde ia dar, mas eventualmente deu nisso, nessas ondas místicas, nessas mãos invisíveis, nessas bússolas, nessas velas alçadas, nessas linhas cruzadas. De repente deu nessas milhas marinhas, nesses fusos horários, nesses meses de solidão. Porque apesar de incerto, é tudo contável, palpável, tangível. A certeza é pura fantasia, já a incerteza vem com réguas, com mapas, com manual e assistência técnica. Quem prefere a miragem, morre sedento. Só encontra água aquele que aprende a navegar o deserto.
Friday, October 10, 2003
Mundos Secretos - parte 2
Ajeitou o cabelo e 5 segundos do mais absoluto silêncio passaram lentamente. Paulo, com o olhar perdido, saiu do transe quando um "quer um pão de queijo" veio lá do fundo, como o som de um despertador de manhãzinha pescando nossa consciência lá do meio do sonho. Ele não conseguiu disfarçar. Ela ajeitou a pashmina novamente, se fazendo de desentendida, jogando uma ponta sobre o ombro esquerdo.
A pashmina era uma estratégia semiótica, (eufemismo para golpe sujo feminino). Era um querer esconder e querer mostrar ao mesmo tempo. A mensagem subliminar era de que embaixo daquele tecido retorcido havia algo tão precioso, tão exclusivo, que precisava ser recoberto com perfeita maciez e calor. Clara fingia que estava escondendo, quando na verdade, estava quase mostrando.
Aquela aura pluri-sensorial confundia Clara, ela queria entender aonde estava a coisa que fazia surgir nela um monte de corações pulsantes, em partes esquisitas do corpo, no estômago, na garganta... E perdia-se na fumaça que riscava o ar e se desfazia lenta em pequenas nuvens, nos cafés que perfumavam a mesa, num dente um pouco torto na arcada inferior do lado esquerdo de Paulo, nas mãos brancas de traços básicos, de palmas magras e dedos longos, que acenavam com o cigarro, ou nos "d"s e "t"s que ele pronunciava de uma maneira suave, à moda antiga. Curiosa, Clara pegou-se observando fixamente a boca dele.
Ele apoiou o cigarro no cinzeiro e debruçou-se sobre a mesa. Os corações espalhados em Clara marcavam passos fora de sintonia. A saliva sumia da boca. Até que, os olhos, que encontraram-se brevemente entre a fumaça perpendicular do cigarro e o vapor do café, desviaram-se num segundo:
-- Acho que está na hora, disse Paulo.
Os corações estancaram de uma vez. "Hora de quê?", pensou Clara. Sentiu-se ruborizar quando o viu tirar do bolso os malditos ingressos do cinema.
A pashmina era uma estratégia semiótica, (eufemismo para golpe sujo feminino). Era um querer esconder e querer mostrar ao mesmo tempo. A mensagem subliminar era de que embaixo daquele tecido retorcido havia algo tão precioso, tão exclusivo, que precisava ser recoberto com perfeita maciez e calor. Clara fingia que estava escondendo, quando na verdade, estava quase mostrando.
Aquela aura pluri-sensorial confundia Clara, ela queria entender aonde estava a coisa que fazia surgir nela um monte de corações pulsantes, em partes esquisitas do corpo, no estômago, na garganta... E perdia-se na fumaça que riscava o ar e se desfazia lenta em pequenas nuvens, nos cafés que perfumavam a mesa, num dente um pouco torto na arcada inferior do lado esquerdo de Paulo, nas mãos brancas de traços básicos, de palmas magras e dedos longos, que acenavam com o cigarro, ou nos "d"s e "t"s que ele pronunciava de uma maneira suave, à moda antiga. Curiosa, Clara pegou-se observando fixamente a boca dele.
Ele apoiou o cigarro no cinzeiro e debruçou-se sobre a mesa. Os corações espalhados em Clara marcavam passos fora de sintonia. A saliva sumia da boca. Até que, os olhos, que encontraram-se brevemente entre a fumaça perpendicular do cigarro e o vapor do café, desviaram-se num segundo:
-- Acho que está na hora, disse Paulo.
Os corações estancaram de uma vez. "Hora de quê?", pensou Clara. Sentiu-se ruborizar quando o viu tirar do bolso os malditos ingressos do cinema.
Thursday, October 09, 2003
Mundos Secretos - parte 1
(cont. de Indivíduos Adjacentes, Paulo e Clara - vários posts abaixo)
Chegou, sentou e dominou todo o campo de visão do rapaz. Estava enrolada em uma echarpe, ou xale (lá sabia ele o nome certo daquele pedaço de pano com franjinhas), de uma textura interessante que provocava insights sinestésicos em Paulo. Era a soma do tecido macio e quente, da pele branca da nuca que escapava à cobertura da gola e dos cabelos, naquele comprimento "estou deixando crescer", que Clara portava.
Os brincos emitiam sinais de luz que deveriam coincidir com código Morse que seu cérebro parecia compreender intuitivamente. De repente, ela correu a mão pelos cabelos, pondo o rosto de lado e, sem querer, a echarpe caiu dos ombros.
Paulo tentou, sem sucesso, resistir ao impulso de espiar dentro do decote voluptuoso da blusa de Clara. Mas, no final, os olhos se prenderam em outro detalhe, que não o colo almofadado dela: a marquinha do biquíni. Uma alça suavemente tatuada na pele alva, e mais alva ainda, era a fronteira entre o que todos podem ver e o mundo secreto, privado e exclusivo, a que só poucos, muito poucos, têm acesso, que se esconde por debaixo de simples tirinhas de pano. E que, na fantasia de Paulo, só ele poderia ver. E queria ver agora mais do que nunca. (Mas teria que terminar o café, dois pra ela, um pra ele, e enfrentar um filme do tipo circuito cultural de algum país obscuro, cujo título observa a fórmula artigo+substantivo e sempre recebe 5 estrelas de todos os jurados com críticas monossilábicas.)
Chegou, sentou e dominou todo o campo de visão do rapaz. Estava enrolada em uma echarpe, ou xale (lá sabia ele o nome certo daquele pedaço de pano com franjinhas), de uma textura interessante que provocava insights sinestésicos em Paulo. Era a soma do tecido macio e quente, da pele branca da nuca que escapava à cobertura da gola e dos cabelos, naquele comprimento "estou deixando crescer", que Clara portava.
Os brincos emitiam sinais de luz que deveriam coincidir com código Morse que seu cérebro parecia compreender intuitivamente. De repente, ela correu a mão pelos cabelos, pondo o rosto de lado e, sem querer, a echarpe caiu dos ombros.
Paulo tentou, sem sucesso, resistir ao impulso de espiar dentro do decote voluptuoso da blusa de Clara. Mas, no final, os olhos se prenderam em outro detalhe, que não o colo almofadado dela: a marquinha do biquíni. Uma alça suavemente tatuada na pele alva, e mais alva ainda, era a fronteira entre o que todos podem ver e o mundo secreto, privado e exclusivo, a que só poucos, muito poucos, têm acesso, que se esconde por debaixo de simples tirinhas de pano. E que, na fantasia de Paulo, só ele poderia ver. E queria ver agora mais do que nunca. (Mas teria que terminar o café, dois pra ela, um pra ele, e enfrentar um filme do tipo circuito cultural de algum país obscuro, cujo título observa a fórmula artigo+substantivo e sempre recebe 5 estrelas de todos os jurados com críticas monossilábicas.)
Tuesday, September 30, 2003
O problema da "volta e volta" é que toda volta pressupõe uma ida. Logo "volta e volta" tem "ida e ida". E eu continuo indo, mas com vontade de voltar. Faz sentido? Não. Ainda bem. É bom sinal. Sentido não ajuda em nada, aliás atrapalha. Melhor amortecê-lo e retomar o caminho aberto na navalha dos sem-sentidos da vida. Não é sentido, é direção que se quer. É uma bússola-oráculo acoplada a um pára-quedas e um relógio despertador (todos auto-ajustáveis) pra gente navegar com toda precisão poética. Afinal de contas, o que mais é preciso na vida? Nada. No entanto, se me fosse permitida uma extravagância, uma única, queria um gato.
Wednesday, September 24, 2003
Felicidade tarja-preta
Uma senhora com olhar triste diz que não tem vontade de fazer nada. Um rapaz de trinta anos com as mãos na cabeça confessa que não consegue se concentrar em nada. Uma mocinha em preto e branco chorosa relata "eu já fui feliz, eu lembro que um dia já pude sentir isso".
Em seguida, a câmera corta para a senhora brincando com seus netos, o rapaz correndo na praia acompanhado de seu golden retriever e a mocinha abraçando seu namorado. E o narrador em off, depois de anunciar o composto ativo e pedir para os espectadores comentarem sobre o remédio com seus médicos, adverte efeitos colaterais: vômitos, diarréias, dores de cabeça, sonolência, perda do desejo sexual. Mas, de maneira muito segura, o rapaz olha pra câmera e afirma "Eu posso ser feliz novamente!".
Desculpem-me, mas sou só eu que não consigo enxergar felicidade e diarréia no mesmo dia? (Pra não mencionar a perda do desejo sexual...)
Minha teoria é a seguinte, as pessoas em geral são divididas em dois grandes grupos quando se trata de felicidade: os que acham que a felicidade está no passado (ou melhor, esteve) e os que acham que a felicidade está no futuro. A turma do "éramos felizes e não sabíamos" precisa de remédio mesmo. Porque um dia eles já foram do segundo grupo mas daí, desistiram. O "amanhã será um novo dia" comprende o pessoal que ainda está tentando. No entanto, esse grupo se subdivide em dois outros, pois muitos integrantes desse grupo eram do primeiro e já estão medicados.
E o outro sub-grupo dos que não estão na tarja preta? São a faixa do contraste. Sim, aquela opção entre os controles de Brilho e Cor de qualquer monitor de computador ou televisão. Ninguém sabe direito pra que serve, mas o fato de ele ficar no meio já diz muito: é pra equilibrar. Nem muito, nem pouco. Nem só brilho, nem só cor.
É o seguinte, depois do remédio, a vida é toda de um só tom. Tudo lindo. Tudo bem. Você pisa em cocô de cachorro, você bate o carro, você perde o emprego e você pede uma pizza, tudo no mesmo tom.
O pessoal do contraste fica puto, triste pra caramba, chora e depois sai pra tomar cerveja com os amigos e rir das agruras da vida. Se apaixona loucamente, perde o chão, as estribeiras e se tomam um pé na bunda, tristes, frustrados, com dor-de-cotovelo, dizem "ah, eu arranjo outro(a)". Felicidade só existe com tristeza. Uma é o contraste da outra. E, como para Parmênides, que agrupou tudo no mundo em pares de opostos, elas são inalienáveis: uma só é quando a outra deixa de ser. Para sabê-las é preciso, não só conhecê-las, mas, ter as duas.
Às vezes é mais fácil entender alguma coisa pelo seu oposto. E sempre acreditar que há oposto.
Em seguida, a câmera corta para a senhora brincando com seus netos, o rapaz correndo na praia acompanhado de seu golden retriever e a mocinha abraçando seu namorado. E o narrador em off, depois de anunciar o composto ativo e pedir para os espectadores comentarem sobre o remédio com seus médicos, adverte efeitos colaterais: vômitos, diarréias, dores de cabeça, sonolência, perda do desejo sexual. Mas, de maneira muito segura, o rapaz olha pra câmera e afirma "Eu posso ser feliz novamente!".
Desculpem-me, mas sou só eu que não consigo enxergar felicidade e diarréia no mesmo dia? (Pra não mencionar a perda do desejo sexual...)
Minha teoria é a seguinte, as pessoas em geral são divididas em dois grandes grupos quando se trata de felicidade: os que acham que a felicidade está no passado (ou melhor, esteve) e os que acham que a felicidade está no futuro. A turma do "éramos felizes e não sabíamos" precisa de remédio mesmo. Porque um dia eles já foram do segundo grupo mas daí, desistiram. O "amanhã será um novo dia" comprende o pessoal que ainda está tentando. No entanto, esse grupo se subdivide em dois outros, pois muitos integrantes desse grupo eram do primeiro e já estão medicados.
E o outro sub-grupo dos que não estão na tarja preta? São a faixa do contraste. Sim, aquela opção entre os controles de Brilho e Cor de qualquer monitor de computador ou televisão. Ninguém sabe direito pra que serve, mas o fato de ele ficar no meio já diz muito: é pra equilibrar. Nem muito, nem pouco. Nem só brilho, nem só cor.
É o seguinte, depois do remédio, a vida é toda de um só tom. Tudo lindo. Tudo bem. Você pisa em cocô de cachorro, você bate o carro, você perde o emprego e você pede uma pizza, tudo no mesmo tom.
O pessoal do contraste fica puto, triste pra caramba, chora e depois sai pra tomar cerveja com os amigos e rir das agruras da vida. Se apaixona loucamente, perde o chão, as estribeiras e se tomam um pé na bunda, tristes, frustrados, com dor-de-cotovelo, dizem "ah, eu arranjo outro(a)". Felicidade só existe com tristeza. Uma é o contraste da outra. E, como para Parmênides, que agrupou tudo no mundo em pares de opostos, elas são inalienáveis: uma só é quando a outra deixa de ser. Para sabê-las é preciso, não só conhecê-las, mas, ter as duas.
Às vezes é mais fácil entender alguma coisa pelo seu oposto. E sempre acreditar que há oposto.
Monday, September 22, 2003
Big Mother - reality cam
9:21:32 - Mâmi Panda sai da toca. Baby fica lá se remexendo no chão, parece um pãozinho frânces com perninhas e bracinhos pretos.
9:45:15 - Mâmi volta, hora da mamada. Depois um banho de lambidas. Capaz de despertar "guti-cutis" até nos mais durões.
10:47:54 - Mâmi saí de novo e o Baby Panda dá seus primeiros passos meio desengonçados.
10:56:23 - Mâmi volta, pega ele com a boca e põe ele pertinho da saída da toca pra ele tomar sol!!!
Estou viciada.
Confira e depois me diga senão é tudo nessa vida...
Agora, se eu fosse você não perderia o susto que a veterinária toma ao examinar o pandinha.
9:45:15 - Mâmi volta, hora da mamada. Depois um banho de lambidas. Capaz de despertar "guti-cutis" até nos mais durões.
10:47:54 - Mâmi saí de novo e o Baby Panda dá seus primeiros passos meio desengonçados.
10:56:23 - Mâmi volta, pega ele com a boca e põe ele pertinho da saída da toca pra ele tomar sol!!!
Estou viciada.
Confira e depois me diga senão é tudo nessa vida...
Agora, se eu fosse você não perderia o susto que a veterinária toma ao examinar o pandinha.
Tuesday, September 09, 2003
Volta e volta
-- Quero uma passagem por favor.
-- Ida e volta?
-- Não, não. Volta e volta.
Deixa eu explicar: eu volto pro Brasil daqui de Miami, mas como agora eu moro em Miami, depois eu volto pra Miami outra vez.
Difícil entender que agora é uma "ida" ao Brasil. E a gente que acha que vai esquecer logo de tudo com as maravilhas de consumo do Tio Sam, se engana e paga a língua. Não há M&M de peanut butter suficiente nesse país inteiro que me faça sentir em casa. Tenho um quarto e um banheiro. Acampamento de verão. Fico achando que dia desses as férias vão acabar e meus pais vão estar me esperando do lado de fora do carro na porta dos alojamentos.
(digressão metafísica: Mas será que um dia desses mesmo, quando as férias acabarem, as férias aqui da minha alma neste planeta, não vai ser assim que eu vou chegar lá do outro lado? O pai e a mãe acenando e eu correndo pra abraçá-los...esse é o céu que eu imagino. Difícil deve ser passar pela vida, ou pelas férias, achando que nada tem volta. Ou que tudo acaba e pronto: final.)
A gente sempre volta. E eu sempre voltando pra lá e pra cá, cada vez num lugar diferente. Tanto faz o lugar, o importante é só voltar de peito aberto, beijo, abraço. E quando a gente ama está sempre voltando. Pode ser que a gente não volte fisicamente, mas o lugar volta pra gente e quem a gente ama, também.
-- Ida e volta?
-- Não, não. Volta e volta.
Deixa eu explicar: eu volto pro Brasil daqui de Miami, mas como agora eu moro em Miami, depois eu volto pra Miami outra vez.
Difícil entender que agora é uma "ida" ao Brasil. E a gente que acha que vai esquecer logo de tudo com as maravilhas de consumo do Tio Sam, se engana e paga a língua. Não há M&M de peanut butter suficiente nesse país inteiro que me faça sentir em casa. Tenho um quarto e um banheiro. Acampamento de verão. Fico achando que dia desses as férias vão acabar e meus pais vão estar me esperando do lado de fora do carro na porta dos alojamentos.
(digressão metafísica: Mas será que um dia desses mesmo, quando as férias acabarem, as férias aqui da minha alma neste planeta, não vai ser assim que eu vou chegar lá do outro lado? O pai e a mãe acenando e eu correndo pra abraçá-los...esse é o céu que eu imagino. Difícil deve ser passar pela vida, ou pelas férias, achando que nada tem volta. Ou que tudo acaba e pronto: final.)
A gente sempre volta. E eu sempre voltando pra lá e pra cá, cada vez num lugar diferente. Tanto faz o lugar, o importante é só voltar de peito aberto, beijo, abraço. E quando a gente ama está sempre voltando. Pode ser que a gente não volte fisicamente, mas o lugar volta pra gente e quem a gente ama, também.
Tuesday, September 02, 2003
... tem que ter letra de música!
Disseram que eu voltei americanizada
Com o "burro" do dinheiro
Que estou muito rica,
Que não suporto mais o breque do pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca.
Disseram que com as mãos estou preocupada
E corre por aí -- que eu sei -- um certo zum-zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandans, já não existe mais nenhum.
Mas prá cima de mim, prá que tanto veneno
Eu posso lá voltar americanizada
Eu que nasci com o samba, e vivo no terreiro
Tocando a noite inteira, a velha batucada.
Nas rodas de malandros, minhas preferidas
Eu digo mesmo que te amo, e nunca "I love you"
Enquanto houver Brasil,
Nas horas das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com "xuxu."
Disseram que eu voltei americanizada
Com o "burro" do dinheiro
Que estou muito rica,
Que não suporto mais o breque do pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca.
Disseram que com as mãos estou preocupada
E corre por aí -- que eu sei -- um certo zum-zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandans, já não existe mais nenhum.
Mas prá cima de mim, prá que tanto veneno
Eu posso lá voltar americanizada
Eu que nasci com o samba, e vivo no terreiro
Tocando a noite inteira, a velha batucada.
Nas rodas de malandros, minhas preferidas
Eu digo mesmo que te amo, e nunca "I love you"
Enquanto houver Brasil,
Nas horas das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com "xuxu."
Wednesday, August 27, 2003
Paulo e Clara: um a um
Foi pela rua, peito estufado, assobiando o hino nacional. Era sua irônica trilha sonora, música de exaltação. Assobiou quando comprara o primeiro carro, quando entrara em seu primeiro apartamento e sempre que trocava de empregos, no primeiro dia de trabalho, ia assobiando no caminho.
Chegara mais cedo, jornal debaixo do braço, dobrado nas palavras-cruzadas, comprou cigarros e veio andando em passo relaxado observando o café. 'Mesa do lado de fora pra duas pessoas'. Um restinho de sol reluzia na beirada da mesa esquentando o lugar oposto ao de Paulo. Pediu um cinzeiro, acendeu um cigarro deixando-o no canto da boca e, quando começava a limpar os óculos enxergou Clara, embaçada, no fundo do quadro, vestida de preto.
Clara marchou rua acima, amaldiçoando os sapatos que escolhera. (Entre o bonito e o confortável, ficou com o bonito, é claro.) Percebeu, depois de dois quarteirões de cantadas infames, que o seu decote estava exagerado e conforme ela andava, ele se mexia, para deleite dos transeuntes daquela tarde de sábado. (Que vergonha meu Deus, fazer o quê?) Entrou no Conjunto Nacional e avistou Paulo. Sentiu-se ruborizar. Esquivou-se, mesclando-se a um grupo de adolescentes-cabeça e entrou na primeira loja feminina que encontrou. Providenciou uma pashmina e enrolou-se. Aproveitou para retocar o batom, chupar a barriga em frente ao espelho e ensaiar um sorriso ou cumprimento. Sentiu-se ridícula na vista das vendedoras da loja, afinal de contas falar sozinha era vergonhoso. Pagou e saiu.
Chegara mais cedo, jornal debaixo do braço, dobrado nas palavras-cruzadas, comprou cigarros e veio andando em passo relaxado observando o café. 'Mesa do lado de fora pra duas pessoas'. Um restinho de sol reluzia na beirada da mesa esquentando o lugar oposto ao de Paulo. Pediu um cinzeiro, acendeu um cigarro deixando-o no canto da boca e, quando começava a limpar os óculos enxergou Clara, embaçada, no fundo do quadro, vestida de preto.
Clara marchou rua acima, amaldiçoando os sapatos que escolhera. (Entre o bonito e o confortável, ficou com o bonito, é claro.) Percebeu, depois de dois quarteirões de cantadas infames, que o seu decote estava exagerado e conforme ela andava, ele se mexia, para deleite dos transeuntes daquela tarde de sábado. (Que vergonha meu Deus, fazer o quê?) Entrou no Conjunto Nacional e avistou Paulo. Sentiu-se ruborizar. Esquivou-se, mesclando-se a um grupo de adolescentes-cabeça e entrou na primeira loja feminina que encontrou. Providenciou uma pashmina e enrolou-se. Aproveitou para retocar o batom, chupar a barriga em frente ao espelho e ensaiar um sorriso ou cumprimento. Sentiu-se ridícula na vista das vendedoras da loja, afinal de contas falar sozinha era vergonhoso. Pagou e saiu.
Tuesday, August 19, 2003
Silêncio pe(r)dido
Botou os dedos sobre meus lábios e pressionou suavemente, pedindo silêncio. Eu obedeci.
Logo, acariciou meus cabelos, deixou a mão pousar na minha nuca e me olhou longamente. Eu, calada, lhe implorei um beijo. Quebrei o silêncio com meu suspiro insatisfeito. Mas, suas mãos correram em socorro das minhas, se entrelaçaram e o gemido, preso na garganta, esmoeceu e perdeu-se na expiração um pouco triste, um pouco nervosa.
Enquanto isso, os corpos se entendiam, as mãos encontravam outros pastos e todo pensamento e palavra se desfazia em suor. Só existia nosso olhar pontilhado e cada vez que uma piscada era mais longa, sua ou minha, eu sentia saudades de você.
Enfim, quando a escuridão cedeu ao seu olhar azul-clarinho, palavras roubadas perguntaram em silêncio 'o que aconteceu?'. Mas, no lugar da minha voz, tuas mãos emolduraram meu rosto, o polegar apagou docemente uma lágrima e me refiz em você. E sinto agora, sorrateiros, teus dedos eternos amortecendo meus soluços furtivos e dúvidas depois da tua partida.
Logo, acariciou meus cabelos, deixou a mão pousar na minha nuca e me olhou longamente. Eu, calada, lhe implorei um beijo. Quebrei o silêncio com meu suspiro insatisfeito. Mas, suas mãos correram em socorro das minhas, se entrelaçaram e o gemido, preso na garganta, esmoeceu e perdeu-se na expiração um pouco triste, um pouco nervosa.
Enquanto isso, os corpos se entendiam, as mãos encontravam outros pastos e todo pensamento e palavra se desfazia em suor. Só existia nosso olhar pontilhado e cada vez que uma piscada era mais longa, sua ou minha, eu sentia saudades de você.
Enfim, quando a escuridão cedeu ao seu olhar azul-clarinho, palavras roubadas perguntaram em silêncio 'o que aconteceu?'. Mas, no lugar da minha voz, tuas mãos emolduraram meu rosto, o polegar apagou docemente uma lágrima e me refiz em você. E sinto agora, sorrateiros, teus dedos eternos amortecendo meus soluços furtivos e dúvidas depois da tua partida.
Thursday, August 07, 2003
Paulo:Clara - Frase veemente
-- Alô.
-- 'Frase veemente de proibição', 11 letras.
Clara gargalhou sonoramente.
-- Comprei uma revista de palavras-cruzadas. Nível Cobrão. Estou viciado.
Gargalhadas de novo.
-- Posso perceber.
-- Aposto que você não adivinha.
-- Me dá algumas letras aí.
-- A segunda letra é 'o', a quarta é 'c' e a última é 's'.
-- Hmmm... Só isso?
-- Só. Posso falar?
Clara fez muxoxos de quem estava raciocinando.
-- ...veemente... proibição...
-- Você não vai adivinhar. Não faz o menor sentido. Nem adianta querer queimar os neurônios. A dica não tem nada a ver com a resposta, te juro.
-- Então diz.
-- Te digo o seguinte: vai pensando, hoje é quarta, te dou três dias, no sábado, lá pelas três da tarde, no Conjunto Nacional, eu te digo.
-- 'Frase veemente de proibição', 11 letras.
Clara gargalhou sonoramente.
-- Comprei uma revista de palavras-cruzadas. Nível Cobrão. Estou viciado.
Gargalhadas de novo.
-- Posso perceber.
-- Aposto que você não adivinha.
-- Me dá algumas letras aí.
-- A segunda letra é 'o', a quarta é 'c' e a última é 's'.
-- Hmmm... Só isso?
-- Só. Posso falar?
Clara fez muxoxos de quem estava raciocinando.
-- ...veemente... proibição...
-- Você não vai adivinhar. Não faz o menor sentido. Nem adianta querer queimar os neurônios. A dica não tem nada a ver com a resposta, te juro.
-- Então diz.
-- Te digo o seguinte: vai pensando, hoje é quarta, te dou três dias, no sábado, lá pelas três da tarde, no Conjunto Nacional, eu te digo.
Da série "palpite nunca é demais"
Conversa com Glória Perez:
-- Eshcuta, (sotaque carioca), acho que a Regina Duarrrte ficaria ótima como Sofia. O negócio é que eshtá faltando aí no seu teishto uma cerrrta pluralidade étnica, sabe, unsh ciganosh, unsh judeush orrrtodoxosh, um pessoal árabe, quem sabe unsh japonesesh? Aí vira novela dash oito. Com direção de Daniel Filho e tudo maish. E tudo maish.
-- Eshcuta, (sotaque carioca), acho que a Regina Duarrrte ficaria ótima como Sofia. O negócio é que eshtá faltando aí no seu teishto uma cerrrta pluralidade étnica, sabe, unsh ciganosh, unsh judeush orrrtodoxosh, um pessoal árabe, quem sabe unsh japonesesh? Aí vira novela dash oito. Com direção de Daniel Filho e tudo maish. E tudo maish.
Wednesday, August 06, 2003
Reza brava
Santa Periquita do Bigode Loiro, Socorrei-me!
Odeio mudanças. Odeio, odeio. Queria o template à lá Mondrian para o resto da minha vida. Pra sempre. Mas ele sumiu da minha área de manutenção e do Blogger como um todo. Foi bom enquanto durou e que não seja eterno posto que é blogging tool gratuita, certo?
Por favor freguesia, o gerente se desculpa pelo mau-jeito mas as mudanças estão feitas sempre com o foco no senhor leitor, "client driven", e dentro em breve o meu, o seu, o nosso blog estará de volta ao "normal diferente", tá?
Servimos bem para sempre servir.
Odeio mudanças. Odeio, odeio. Queria o template à lá Mondrian para o resto da minha vida. Pra sempre. Mas ele sumiu da minha área de manutenção e do Blogger como um todo. Foi bom enquanto durou e que não seja eterno posto que é blogging tool gratuita, certo?
Por favor freguesia, o gerente se desculpa pelo mau-jeito mas as mudanças estão feitas sempre com o foco no senhor leitor, "client driven", e dentro em breve o meu, o seu, o nosso blog estará de volta ao "normal diferente", tá?
Servimos bem para sempre servir.
Friday, August 01, 2003
Mundos Paralelos: antes da história.
Com a barriga e as pernas pro alto, uma persiana entreaberta e um livro extremamente chato no colo, Sofia observava entediada aquele sábado esquisito.
Sentia-se um monstro, uma sequóia secular gigante e presa eternamente ao chão. Já não alcançava os pés e não conseguia amarrar seus próprios sapatos. E um monte de coisas que ninguém conta sobre a gravidez a surpreendiam cada manhã. Hemorróidas, gases, espinhas, o leite escorrendo do seio prematuramente e as canelas inchadas. Envergonhava-se de estar querendo brigar com a natureza, que deveria ser mais sábia, que lhe dava esse prazer supremo de gerar uma nova vida. Arrependia-se com um ataque de falta de ar, vontade de fazer xixi, de comer algum doce, sono e dor nas costas. Era tudo difícil, vagaroso, esquisito. Sentia um pouco de tudo, dor em todo lugar, enjôo, mal estar e fome. E sentia remorso de novo. Não precisava sentir remorso. Mas, sem entender direito o seu coração, Sofia deprimia-se levemente de tanta estranheza.
Sentou-se de novo com uma xícara de chá, um cobertor, um pão com manteiga, o mesmo livro e antes que se concentrasse, batidas parcas na porta a interromperam.
Carregou-se até o olho mágico, com as mãos apoiadas nas costas, como todas as mulheres andam depois dos 7 meses de gravidez e reconheceu rapidamente aqueles olhões vermelhos e o nariz inchado.
-- Que que aconteceu Clarinha...
Clara não conseguiu responder. Entrou com um pacote de restaurante na mão. Sofia entendeu tudo. Uma não falou nada pra outra, porém sabiam-se telepaticamente, era infálivel. Sofia a pôs sentada no sofá. Pôs a xícara de chá na mão dela. Ofereceu de guardar o pacote do restaurante na geladeira. Depois sentou-se pra dividir o pão com manteiga e tudo mais naquela tarde de sábado esquisita.
Com a barriga e as pernas pro alto, uma persiana entreaberta e um livro extremamente chato no colo, Sofia observava entediada aquele sábado esquisito.
Sentia-se um monstro, uma sequóia secular gigante e presa eternamente ao chão. Já não alcançava os pés e não conseguia amarrar seus próprios sapatos. E um monte de coisas que ninguém conta sobre a gravidez a surpreendiam cada manhã. Hemorróidas, gases, espinhas, o leite escorrendo do seio prematuramente e as canelas inchadas. Envergonhava-se de estar querendo brigar com a natureza, que deveria ser mais sábia, que lhe dava esse prazer supremo de gerar uma nova vida. Arrependia-se com um ataque de falta de ar, vontade de fazer xixi, de comer algum doce, sono e dor nas costas. Era tudo difícil, vagaroso, esquisito. Sentia um pouco de tudo, dor em todo lugar, enjôo, mal estar e fome. E sentia remorso de novo. Não precisava sentir remorso. Mas, sem entender direito o seu coração, Sofia deprimia-se levemente de tanta estranheza.
Sentou-se de novo com uma xícara de chá, um cobertor, um pão com manteiga, o mesmo livro e antes que se concentrasse, batidas parcas na porta a interromperam.
Carregou-se até o olho mágico, com as mãos apoiadas nas costas, como todas as mulheres andam depois dos 7 meses de gravidez e reconheceu rapidamente aqueles olhões vermelhos e o nariz inchado.
-- Que que aconteceu Clarinha...
Clara não conseguiu responder. Entrou com um pacote de restaurante na mão. Sofia entendeu tudo. Uma não falou nada pra outra, porém sabiam-se telepaticamente, era infálivel. Sofia a pôs sentada no sofá. Pôs a xícara de chá na mão dela. Ofereceu de guardar o pacote do restaurante na geladeira. Depois sentou-se pra dividir o pão com manteiga e tudo mais naquela tarde de sábado esquisita.
Reality check: o preço que se paga...
Moça bonita não paga, mas também não leva!
Cheguei no caixa e até a moça que estava do meu lado se assustou: "Oops! That's an expensive pepper!"
Indeed. Mas aqui é assim. Tudo que é natural vem de outro país. Ou você acha que gringo planta alguma coisa? Planta nada. Ah, bom, só grama no jardim. In the backyard. E isso eles cultivam religiosamente. Tem uma gama longuíssima de produtos para proteger a grama, ora do frio, ora do calor, ora das pragas de jardim, ora do dono descuidado mesmo. Tem todos aqueles cortadores de grama hi-tech (não esquecer daquele famoso filme de ficção científica "The lawnmower man"). Ou seja, grama não se come. Conclusão: manda importar tudo do México mesmo. Mas daí, tem um limão triste, com a moral lá em baixo, que não nasceu pra ser caipirinha, sabe... E você perambula sem graça pelas gôndolas de vegetais, esperando se apaixonar loucamente por um melão, que um papaia lhe chame a atenção, que os tomates gritem "Marinara" em uníssono. Mas não, não tem jeito, nada pode chegar aos pés daquele monte de homem meio sem dentes, suados, gritando que a dúzia da abobrinha baixou, na barraquinha de lona laranja armada em frente a kômbi. Nada nunca se comparará ao colorido alegre do homem das panelas, aquele que concerta cabos, que vende a borrachinha do liquidificador, que amola facas, canivetes, tesouras e alicatinhos de unha. Do ladinho da barraca da senhora que vende bonequinhas plásticas, que vêm com uma mamadeirinha e um pente e fazem xixi. Logo ali na frente do homem do peixe - geralmente japonês - aquele cheiro forte nem incomoda quem passa, porque geralmente todos os transeuntes trazem consigo um pastel soltando fumacinha de tão quente!
Aqui, a gente olha a cenoura pálida, coitadinha, e tem vontade de botar ela no sol pra bronzear. Um abacaxi sem auto-estima nenhuma, que já vem descascado num potinho plástico, despido da sua carapaça imponente - já nem é abacaxi. Não vou nem falar da maçã. Se os irmãos Grimm tivessem morado aqui, a Branca de Neve teria sido envenenada com outra coisa qualquer, talvez um sanduíche de pasta de amendoim com geléia, ou um donut reluzindo de tanta gordura, da Krispy Kréme. (Não precisava nem por feitiçaria, assim que ela mordesse o donut ia desmaiar de asia e o Príncipe Encantado chegaria em seu cavalo branco trazendo Engov!)
1 pimentão por 1,68 dólares, madame, vai levar?
Vou sim! vou resgatá-lo deste orfanato de legumes, verduras e frutas onde ele estava fadado a terminar sua curta vida vegetal.
Já na minha panela, cortadinho, temperadinho, misturadinho com todo o resto, tava ele lá, o pimentão, feliz da vida, recuperado de todos os complexos de inferioridade. E eu jantei muito bem, obrigada. À lá brasileira.
Moça bonita não paga, mas também não leva!
Cheguei no caixa e até a moça que estava do meu lado se assustou: "Oops! That's an expensive pepper!"
Indeed. Mas aqui é assim. Tudo que é natural vem de outro país. Ou você acha que gringo planta alguma coisa? Planta nada. Ah, bom, só grama no jardim. In the backyard. E isso eles cultivam religiosamente. Tem uma gama longuíssima de produtos para proteger a grama, ora do frio, ora do calor, ora das pragas de jardim, ora do dono descuidado mesmo. Tem todos aqueles cortadores de grama hi-tech (não esquecer daquele famoso filme de ficção científica "The lawnmower man"). Ou seja, grama não se come. Conclusão: manda importar tudo do México mesmo. Mas daí, tem um limão triste, com a moral lá em baixo, que não nasceu pra ser caipirinha, sabe... E você perambula sem graça pelas gôndolas de vegetais, esperando se apaixonar loucamente por um melão, que um papaia lhe chame a atenção, que os tomates gritem "Marinara" em uníssono. Mas não, não tem jeito, nada pode chegar aos pés daquele monte de homem meio sem dentes, suados, gritando que a dúzia da abobrinha baixou, na barraquinha de lona laranja armada em frente a kômbi. Nada nunca se comparará ao colorido alegre do homem das panelas, aquele que concerta cabos, que vende a borrachinha do liquidificador, que amola facas, canivetes, tesouras e alicatinhos de unha. Do ladinho da barraca da senhora que vende bonequinhas plásticas, que vêm com uma mamadeirinha e um pente e fazem xixi. Logo ali na frente do homem do peixe - geralmente japonês - aquele cheiro forte nem incomoda quem passa, porque geralmente todos os transeuntes trazem consigo um pastel soltando fumacinha de tão quente!
Aqui, a gente olha a cenoura pálida, coitadinha, e tem vontade de botar ela no sol pra bronzear. Um abacaxi sem auto-estima nenhuma, que já vem descascado num potinho plástico, despido da sua carapaça imponente - já nem é abacaxi. Não vou nem falar da maçã. Se os irmãos Grimm tivessem morado aqui, a Branca de Neve teria sido envenenada com outra coisa qualquer, talvez um sanduíche de pasta de amendoim com geléia, ou um donut reluzindo de tanta gordura, da Krispy Kréme. (Não precisava nem por feitiçaria, assim que ela mordesse o donut ia desmaiar de asia e o Príncipe Encantado chegaria em seu cavalo branco trazendo Engov!)
1 pimentão por 1,68 dólares, madame, vai levar?
Vou sim! vou resgatá-lo deste orfanato de legumes, verduras e frutas onde ele estava fadado a terminar sua curta vida vegetal.
Já na minha panela, cortadinho, temperadinho, misturadinho com todo o resto, tava ele lá, o pimentão, feliz da vida, recuperado de todos os complexos de inferioridade. E eu jantei muito bem, obrigada. À lá brasileira.
Thursday, July 24, 2003
Indíviduos Perpendiculares.
Pediu café. Café sempre pede um cigarro. Revistou-se. Pronto, perdera mais um isqueiro. 'Garçon, fósforos'. Deu a primeira tragada. Deixou o cigarro pousando entre os lábios, meio à lá Delon e tirou os óculos. Concentrou-se em polir as lentes com um guardanapo daqueles vagabundos que espalham a sujeira. Estava se preparando e logo avistou-a: livro em mãos, pedindo 2 cafés. 'Dois cafés?' se perguntou receoso de que ela estivesse esperando alguém. Assistiu a moça tomando o primeiro, sem açucar, devagarinho enquanto folheava o livro.
'Oi, meu nome é Paulo, prazer', 'Prazer, Paulo', 'Esta cadeira esta ocupada?' Tudo soava falso, cantadas baratas, e a moça começava o seu segundo cafezinho (que alívio, os dois eram pra ela), colocava o livro fechado sobre a mesa e Paulo sabia que ela estava se preparando para ir embora. A moça correu os olhos pelo restaurante, pediu a conta, guardou o livro e foi até o banheiro. Paulo deu a última tragada, esmagou a bituquinha no cinzeiro e, desesperançoso, recolheu o jornal de maneira desorganizada e foi-se também. Começava a chover, eram às 14h25 de uma quinta-feira qualquer.
-- Rusga!
Virou rapidamente.
-- Rusga: briga de marido e mulher com 5 letras. E 'altar de umbanda' é "aca" -- disse a moça estendendo-lhe o caderno do jornal que Paulo deixara pra trás.
Paulo, surpreso, lacônico e principalmente nervoso, respondeu:
-- ...Rusga, aca... Paulo, prazer.
(Não, definitivamente de todas as frases que ele mentalmente ensaiara "rusga-aca-paulo-prazer" não era a melhor. O que era aquilo? Código? É impressionante que todas as 3 décadas de vida até ali não siginificavam nada e Paulo engasgava como um pré-adolescente roubando seu primeiro beijo da primeira namoradinha.)
Por falta de espirituosidade resolveu fumar, virou a caixa de Marlboro na direção dela e ela aceitou um cigarro.
-- Prazer, Clara. Minha vó era viciada em palavras-cruzadas... Aca aparece pelo menos 8 vezes em cada edição da "Coquetel".
Paulo sorriu moderamente enquanto acendia o cigarro dela. E ela continuou:
-- E sempre me pergunto de onde tiraram essa porra de "aca".
Engoliu a frase quase que no meio e depois perguntou pra ele:
-- Você não se importa com palavrão, né?
Paulo adorou a pergunta e achou a maior graça na moça conversadora.
-- Hmm... Se eu fosse mais adepto dessa porra de aca, quem sabe...
Ela riu e Paulo abriu seu guarda-chuvas orgulhoso de ter extraído de seu cérebro quase catatônico alguma coisa engraçada. Ofereceu-lhe o braço e deu-lhe uma carona até o outro lado da rua, um edifício médico e Paulo achou melhor não perguntar o que ela faria ali. Mas, quando estavam prontos para irem cada um pro seu lado da história, de volta aos universos paralelos incomunicáveis, como há alguns minutos atrás naquele bar, Paulo arriscou:
-- Escuta, Clara, e se eu precisar de ajuda com o resto das palavras-cruzadas, tem algum telefone onde eu possa te encontrar?
E ela entrou no prédio e ele entrou na história.
*******
Algum leitor atencioso poderá dizer que a saída do papel acidentalmente deixado para trás por um personagem e resgatado por outro, já foi usada antes em outro conto meu. Daí, eu poderia alegar a velha cafajestada "nada se cria...", mas vou dar a cara pra bater porque foi irresistível! Caro leitor, essa saída me pareceu tão alegórica, tão perfeita, ainda mais sendo o caderno de palavras-cruzadas no dia em que as primeiras palavras foram cruzadas entre os dois personagens...
Pediu café. Café sempre pede um cigarro. Revistou-se. Pronto, perdera mais um isqueiro. 'Garçon, fósforos'. Deu a primeira tragada. Deixou o cigarro pousando entre os lábios, meio à lá Delon e tirou os óculos. Concentrou-se em polir as lentes com um guardanapo daqueles vagabundos que espalham a sujeira. Estava se preparando e logo avistou-a: livro em mãos, pedindo 2 cafés. 'Dois cafés?' se perguntou receoso de que ela estivesse esperando alguém. Assistiu a moça tomando o primeiro, sem açucar, devagarinho enquanto folheava o livro.
'Oi, meu nome é Paulo, prazer', 'Prazer, Paulo', 'Esta cadeira esta ocupada?' Tudo soava falso, cantadas baratas, e a moça começava o seu segundo cafezinho (que alívio, os dois eram pra ela), colocava o livro fechado sobre a mesa e Paulo sabia que ela estava se preparando para ir embora. A moça correu os olhos pelo restaurante, pediu a conta, guardou o livro e foi até o banheiro. Paulo deu a última tragada, esmagou a bituquinha no cinzeiro e, desesperançoso, recolheu o jornal de maneira desorganizada e foi-se também. Começava a chover, eram às 14h25 de uma quinta-feira qualquer.
-- Rusga!
Virou rapidamente.
-- Rusga: briga de marido e mulher com 5 letras. E 'altar de umbanda' é "aca" -- disse a moça estendendo-lhe o caderno do jornal que Paulo deixara pra trás.
Paulo, surpreso, lacônico e principalmente nervoso, respondeu:
-- ...Rusga, aca... Paulo, prazer.
(Não, definitivamente de todas as frases que ele mentalmente ensaiara "rusga-aca-paulo-prazer" não era a melhor. O que era aquilo? Código? É impressionante que todas as 3 décadas de vida até ali não siginificavam nada e Paulo engasgava como um pré-adolescente roubando seu primeiro beijo da primeira namoradinha.)
Por falta de espirituosidade resolveu fumar, virou a caixa de Marlboro na direção dela e ela aceitou um cigarro.
-- Prazer, Clara. Minha vó era viciada em palavras-cruzadas... Aca aparece pelo menos 8 vezes em cada edição da "Coquetel".
Paulo sorriu moderamente enquanto acendia o cigarro dela. E ela continuou:
-- E sempre me pergunto de onde tiraram essa porra de "aca".
Engoliu a frase quase que no meio e depois perguntou pra ele:
-- Você não se importa com palavrão, né?
Paulo adorou a pergunta e achou a maior graça na moça conversadora.
-- Hmm... Se eu fosse mais adepto dessa porra de aca, quem sabe...
Ela riu e Paulo abriu seu guarda-chuvas orgulhoso de ter extraído de seu cérebro quase catatônico alguma coisa engraçada. Ofereceu-lhe o braço e deu-lhe uma carona até o outro lado da rua, um edifício médico e Paulo achou melhor não perguntar o que ela faria ali. Mas, quando estavam prontos para irem cada um pro seu lado da história, de volta aos universos paralelos incomunicáveis, como há alguns minutos atrás naquele bar, Paulo arriscou:
-- Escuta, Clara, e se eu precisar de ajuda com o resto das palavras-cruzadas, tem algum telefone onde eu possa te encontrar?
E ela entrou no prédio e ele entrou na história.
*******
Algum leitor atencioso poderá dizer que a saída do papel acidentalmente deixado para trás por um personagem e resgatado por outro, já foi usada antes em outro conto meu. Daí, eu poderia alegar a velha cafajestada "nada se cria...", mas vou dar a cara pra bater porque foi irresistível! Caro leitor, essa saída me pareceu tão alegórica, tão perfeita, ainda mais sendo o caderno de palavras-cruzadas no dia em que as primeiras palavras foram cruzadas entre os dois personagens...
Thursday, July 17, 2003
Reality Check: o pior é que era tudo verdade
Nada, nadica de nada, era mentira, invenção da minha cabeçorra delirante por excesso de fritura e álcool. Verdade verdadeira. No duro! Sempre que você vir o título "Reality check" pode ter certeza de que é real. Quer dizer, resguardadas as diferenças no conceito de realidade dos povos. Tudo o que está em Reality Check é fato e ocorreu (redundância intencional) mas até eu mesma, tendo sido testemunha, às vezes desconfio que estejamos vivendo num sonho coletivo, uma coisa meio Raul Seixas misturada com Matrix -- sem tiroteio mas cheia de pílulas azuis, vermelhas, efervescentes, gelatinosas, ao gosto do freguês.
Engraçado que a história do Viagra (lê-se Vaiagra) foi a que provocou a maior polêmica e, repito, foi verdade! Agora, eu recebendo remédio de enxaqueca, que nem uma índia à beira do Monte Paschoal recebendo espelinho, ninguém achou maluquice, né?
Eu ouço as coisas mais apavorantes em português de gringo também. Eu morro de rir. Todo mundo quer dizer "Tudo bem". Dentre todas as palavras da língua portuguesa e todas as expressões paulistas, cariocas e tutti quanti, todos os gringos aprendem e nunca se esquecem do "tudo bem". Várias conclusões pipocam na caixola. Que coisa mais simpática dizer "alright", "everything's fine", "no problem" assim de cara em outra língua. É o espírito do brasileiro que contamina tudo. (Fico a pensar se para se virar no Brasuca só o que se precisa saber é "tchudo bem". Um amigo me disse que na França basta saber "moi aussi". Discordar de francês e em francês dá um trabalho...) Bom, o mais divertido é que nunca íamos pensar que essas duas palavras poderiam apresentar qualquer grau de dificuldade... É, mas é aí que the pig twists its tail. Esse monte de som anasalado que a gente nem lembra mais que emite, ninguém, ninguém, ninguém sabe fazer. 'Bem', lê-se beinmnmnm... tem esse sonzinho indefinido, delicioso, no final. Quem se importa se é com m ou n? Só a Tia Vilma da terceira série e por isso mesmo a gente aprendeu direitinho e tudo isso ficou grudado na nossa cabeça. Perceba: você, que está lendo meu blog, é um ser feliz só por falar português. Talvez a garota por quem você esteja apaixonado não te dê a menor bola, talvez tenham roubado teu carro, quem sabe você esteja com problemas no emprego... mas eu garanto que você é instantaneamente mais feliz que as pessoas em geral por ter nascido imerso na última flor do lácio (...inculta e bela...) e saber intuitivamente se é m ou n, b ou v, dois r ou um só, s, z ou dois s... Só a gente sabe tudo isso. No nosso idioma é óbvio, mas advinhar no idioma dos outros é fácil como um pedaço de bolo.
Até que um dia um sujeito venezuelano virou pra mim, bêbado é claro, e, tendo esperado o momento mais oportuno quando todos pararam de falar, proferiu: "O cachorro-quente do João é muito gostoso". Eu fui correndo pro banheiro senão tinha feito xixi na calça. Quando voltei o mistério pairava: nem o venezuelano sabia o que ele mesmo tinha aprendido em português! Johnny's hotdog is very tasty -- for whatever it's worth. Isso mesmo, essa cara que você está fazendo, foi a cara que todo mundo fez.
Eita ferro! Oh Iron!
E só posso terminar dizendo que o pior é que é verdade.
Nada, nadica de nada, era mentira, invenção da minha cabeçorra delirante por excesso de fritura e álcool. Verdade verdadeira. No duro! Sempre que você vir o título "Reality check" pode ter certeza de que é real. Quer dizer, resguardadas as diferenças no conceito de realidade dos povos. Tudo o que está em Reality Check é fato e ocorreu (redundância intencional) mas até eu mesma, tendo sido testemunha, às vezes desconfio que estejamos vivendo num sonho coletivo, uma coisa meio Raul Seixas misturada com Matrix -- sem tiroteio mas cheia de pílulas azuis, vermelhas, efervescentes, gelatinosas, ao gosto do freguês.
Engraçado que a história do Viagra (lê-se Vaiagra) foi a que provocou a maior polêmica e, repito, foi verdade! Agora, eu recebendo remédio de enxaqueca, que nem uma índia à beira do Monte Paschoal recebendo espelinho, ninguém achou maluquice, né?
Eu ouço as coisas mais apavorantes em português de gringo também. Eu morro de rir. Todo mundo quer dizer "Tudo bem". Dentre todas as palavras da língua portuguesa e todas as expressões paulistas, cariocas e tutti quanti, todos os gringos aprendem e nunca se esquecem do "tudo bem". Várias conclusões pipocam na caixola. Que coisa mais simpática dizer "alright", "everything's fine", "no problem" assim de cara em outra língua. É o espírito do brasileiro que contamina tudo. (Fico a pensar se para se virar no Brasuca só o que se precisa saber é "tchudo bem". Um amigo me disse que na França basta saber "moi aussi". Discordar de francês e em francês dá um trabalho...) Bom, o mais divertido é que nunca íamos pensar que essas duas palavras poderiam apresentar qualquer grau de dificuldade... É, mas é aí que the pig twists its tail. Esse monte de som anasalado que a gente nem lembra mais que emite, ninguém, ninguém, ninguém sabe fazer. 'Bem', lê-se beinmnmnm... tem esse sonzinho indefinido, delicioso, no final. Quem se importa se é com m ou n? Só a Tia Vilma da terceira série e por isso mesmo a gente aprendeu direitinho e tudo isso ficou grudado na nossa cabeça. Perceba: você, que está lendo meu blog, é um ser feliz só por falar português. Talvez a garota por quem você esteja apaixonado não te dê a menor bola, talvez tenham roubado teu carro, quem sabe você esteja com problemas no emprego... mas eu garanto que você é instantaneamente mais feliz que as pessoas em geral por ter nascido imerso na última flor do lácio (...inculta e bela...) e saber intuitivamente se é m ou n, b ou v, dois r ou um só, s, z ou dois s... Só a gente sabe tudo isso. No nosso idioma é óbvio, mas advinhar no idioma dos outros é fácil como um pedaço de bolo.
Até que um dia um sujeito venezuelano virou pra mim, bêbado é claro, e, tendo esperado o momento mais oportuno quando todos pararam de falar, proferiu: "O cachorro-quente do João é muito gostoso". Eu fui correndo pro banheiro senão tinha feito xixi na calça. Quando voltei o mistério pairava: nem o venezuelano sabia o que ele mesmo tinha aprendido em português! Johnny's hotdog is very tasty -- for whatever it's worth. Isso mesmo, essa cara que você está fazendo, foi a cara que todo mundo fez.
Eita ferro! Oh Iron!
E só posso terminar dizendo que o pior é que é verdade.
Tuesday, July 15, 2003
Mundos paralelos: esperança e inércia.
Cansada de brigar com o vento que insistia em folhear seu livro, e sentindo o peso dos óculos de sol sob o nariz vermelho, desistiu da leitura. E o vento parou. Era só para provocá-la, só podia ser. Deitou-se de costas e ficou curtindo a inércia. Lá do fundo ouviu telefone tocando, cachorro latindo e, por fim, um par de havaianas estalando pelo chão. O pléc-pléc cessou.
-- Dona Dora, é o seu marido, qué dizê, é o seu Agenor.
-- Oi. Hã, hã. Tá. Quantos são? Que horas? Tá. Tá bom, eu coloco a saia preta. Beijo. Tchau.
-- Ele pediu pra fazer o salmão - disse Lourdes, argumentativa.
-- Frango.
-- Mas dona Dora...
-- Faz aquele frango temperadinho mesmo, tô com salmão por aqui - apontando a garganta - , um arroz bem gostoso, umas folhas de entrada - tanto faz - liga pro mercadinho da esquina e pede pra eles entregarem
-- A senhora vai me desculpar, mas essas coisas a gente tem que pegar na mão pra escolher, apertar, ver se está maduro..
-- É pra isso que eu te contratei. Vai lá você. Ou eu tenho cara de quem sabe escolher legume?
-- Ô dona Dora, que mal lhe pergunte, mas agora, depois de...de... de ter voltado do hospital a senhora vai ficar aqui fazendo nada....
E Lourdes parou de repente. Na mesinha da piscina havia pousado um interessante inseto verde.
-- Eca, que é isso, tira isso daqui, Lourdes, pelo amor de Deus...
-- Dona Dora, é uma esperança! É sorte, bom presságio!
-- Esperança é? Dora resgatou o livro debaixo da espreguiçadeira e deu com ele em cima do bicho.
Lourdes foi resmungando pra cozinha e desamarrando o avental, o pléc-pléc dos chinelos, por sorte, abafava os desaforos. Ia passar na vendinha pra escolher os legumes do seu Agenor.
E Dora ia continuar curtindo a inércia, fazendo nada o dia todo. Sem esperança nenhuma pra atrapalhar.
*****
Dias depois, lá do escritório, no meio de um sábado mais ou menos, Agenor gritou:
-- Que porra é essa, grudada no meu livro? Ô Dora...
Dora entrou no banheiro correndo. E, lá da cozinha, Lourdes deu risada. Resmungou:
-- Era a esperança, seu Agenor.
Mas ele não ouviu.
Cansada de brigar com o vento que insistia em folhear seu livro, e sentindo o peso dos óculos de sol sob o nariz vermelho, desistiu da leitura. E o vento parou. Era só para provocá-la, só podia ser. Deitou-se de costas e ficou curtindo a inércia. Lá do fundo ouviu telefone tocando, cachorro latindo e, por fim, um par de havaianas estalando pelo chão. O pléc-pléc cessou.
-- Dona Dora, é o seu marido, qué dizê, é o seu Agenor.
-- Oi. Hã, hã. Tá. Quantos são? Que horas? Tá. Tá bom, eu coloco a saia preta. Beijo. Tchau.
-- Ele pediu pra fazer o salmão - disse Lourdes, argumentativa.
-- Frango.
-- Mas dona Dora...
-- Faz aquele frango temperadinho mesmo, tô com salmão por aqui - apontando a garganta - , um arroz bem gostoso, umas folhas de entrada - tanto faz - liga pro mercadinho da esquina e pede pra eles entregarem
-- A senhora vai me desculpar, mas essas coisas a gente tem que pegar na mão pra escolher, apertar, ver se está maduro..
-- É pra isso que eu te contratei. Vai lá você. Ou eu tenho cara de quem sabe escolher legume?
-- Ô dona Dora, que mal lhe pergunte, mas agora, depois de...de... de ter voltado do hospital a senhora vai ficar aqui fazendo nada....
E Lourdes parou de repente. Na mesinha da piscina havia pousado um interessante inseto verde.
-- Eca, que é isso, tira isso daqui, Lourdes, pelo amor de Deus...
-- Dona Dora, é uma esperança! É sorte, bom presságio!
-- Esperança é? Dora resgatou o livro debaixo da espreguiçadeira e deu com ele em cima do bicho.
Lourdes foi resmungando pra cozinha e desamarrando o avental, o pléc-pléc dos chinelos, por sorte, abafava os desaforos. Ia passar na vendinha pra escolher os legumes do seu Agenor.
E Dora ia continuar curtindo a inércia, fazendo nada o dia todo. Sem esperança nenhuma pra atrapalhar.
*****
Dias depois, lá do escritório, no meio de um sábado mais ou menos, Agenor gritou:
-- Que porra é essa, grudada no meu livro? Ô Dora...
Dora entrou no banheiro correndo. E, lá da cozinha, Lourdes deu risada. Resmungou:
-- Era a esperança, seu Agenor.
Mas ele não ouviu.
Monday, July 14, 2003
Reality Check - Primeiro mundo
Quer saber o que é primeiro mundo? É calmante na espera do dentista.
Calmante mesmo. E aquela velha história de que não há civilização abaixo do Equador? Não há civilização sem Lexotan, isso sim. Se inventaram esses produtos delirantes (ao pé da palavra) proveninentes da papoula (pra não dizer ópio, pega mal, pega mal...) pra quê sentir dor e incômodo? E o pior é que eu acho que quem se beneficia mais é o dentista. Dentista de primeiro mundo não quer paciente reclamando, levantando a mão toda vez que ele precisa chegar perto do nervo com o motorzinho.
Aqui, remédio é mais importante que amizade e que dinheiro. Precisa de carona, te levo, precisa de alguns dólares, te empresto, mas não venha pedindo calmante, anti-histamínico ou sonífero 'du bão', não! Prescription Drugs não, violão! Acompanhe a historieta: uma amiga gringa tava desconfiada que o namorado tinha outra. Encontrou um comprovante do cartão de crédito dele de lingerie que não foi presente pra ela. Algum tempo depois, encontrou umas camisinhas no necessaire que ele ia levar pra uma suposta viagem de negócios. Mas aí, a gota d'água veio no dia em que ela encontrou uma cartelinha de Viagra, já com algumas cápsulas faltando: traição mesmo não é dormir com outra, é usar Viagra com outra! Aí ela terminou tudo e pronto. Pura sem vergonhice. Eu também não ia admitir que meu marido quisesse ter uma performance melhor com a outra!!! Onde já se viu? Ir lá, dar umas bimbadinhas é uma coisa. Comprar Viagra pra comer a amante é intolerável.
Uma outra gringa se hospedou lá em casa por 1 semana. Eu fiz as vezes de cicerone e a levei pra uns lugares descolados. (Detalhe que essa foi a que me fez comprar a tanga e os bobs elétricos recheados de cera - opa! too much information!, a historia dos bobs fica pra próxima...) Bom, chegou o dia de ela ir embora e, como presente de gratidão, ela me deixou duas amostras do remédio dela pra enxaqueca!!! Vê se pode? Que coisa mais amável! Eu ainda não tomei. Pra falar a verdade, fiquei com medo. Ou ainda não tive a enxaqueca que merecesse 50% do meu estoque de drogas 'barra pesada' americanas. Quase tive. Foi da última vez que algum local me fez uma pergunta idiota sobre o Brasil. Escuta, não agüento mais!!! Só eles tem as manhas de perguntar com naturalidade se o Brasil fica mais ao sul da Costa Rica. Se Belize é uma parte do Brasil. Ah, e a melhor de todas, se tem forno de microondas no Brasil. Essa foi de autoria de uma moça, loira por sinal, sem querer generalizar, mas ela sofria daquela falta de neurônios por causa da falta de pigmento no cabelo.
Quer saber, Belize é a capital do Brasil! Microondas? Pra que serve? Costa Rica, nunca ouvi falar. Aliás, abaixo da linha do Equador, existe alguma coisa de verdade ou é só especulação do tipo "existe vida em Marte"?
Amigo leitor, nós somos ETs!!! Tá lá, no meu visto de trabalho: Legal Alien.
Ué, e tem termo mais apropriado?
Quer saber o que é primeiro mundo? É calmante na espera do dentista.
Calmante mesmo. E aquela velha história de que não há civilização abaixo do Equador? Não há civilização sem Lexotan, isso sim. Se inventaram esses produtos delirantes (ao pé da palavra) proveninentes da papoula (pra não dizer ópio, pega mal, pega mal...) pra quê sentir dor e incômodo? E o pior é que eu acho que quem se beneficia mais é o dentista. Dentista de primeiro mundo não quer paciente reclamando, levantando a mão toda vez que ele precisa chegar perto do nervo com o motorzinho.
Aqui, remédio é mais importante que amizade e que dinheiro. Precisa de carona, te levo, precisa de alguns dólares, te empresto, mas não venha pedindo calmante, anti-histamínico ou sonífero 'du bão', não! Prescription Drugs não, violão! Acompanhe a historieta: uma amiga gringa tava desconfiada que o namorado tinha outra. Encontrou um comprovante do cartão de crédito dele de lingerie que não foi presente pra ela. Algum tempo depois, encontrou umas camisinhas no necessaire que ele ia levar pra uma suposta viagem de negócios. Mas aí, a gota d'água veio no dia em que ela encontrou uma cartelinha de Viagra, já com algumas cápsulas faltando: traição mesmo não é dormir com outra, é usar Viagra com outra! Aí ela terminou tudo e pronto. Pura sem vergonhice. Eu também não ia admitir que meu marido quisesse ter uma performance melhor com a outra!!! Onde já se viu? Ir lá, dar umas bimbadinhas é uma coisa. Comprar Viagra pra comer a amante é intolerável.
Uma outra gringa se hospedou lá em casa por 1 semana. Eu fiz as vezes de cicerone e a levei pra uns lugares descolados. (Detalhe que essa foi a que me fez comprar a tanga e os bobs elétricos recheados de cera - opa! too much information!, a historia dos bobs fica pra próxima...) Bom, chegou o dia de ela ir embora e, como presente de gratidão, ela me deixou duas amostras do remédio dela pra enxaqueca!!! Vê se pode? Que coisa mais amável! Eu ainda não tomei. Pra falar a verdade, fiquei com medo. Ou ainda não tive a enxaqueca que merecesse 50% do meu estoque de drogas 'barra pesada' americanas. Quase tive. Foi da última vez que algum local me fez uma pergunta idiota sobre o Brasil. Escuta, não agüento mais!!! Só eles tem as manhas de perguntar com naturalidade se o Brasil fica mais ao sul da Costa Rica. Se Belize é uma parte do Brasil. Ah, e a melhor de todas, se tem forno de microondas no Brasil. Essa foi de autoria de uma moça, loira por sinal, sem querer generalizar, mas ela sofria daquela falta de neurônios por causa da falta de pigmento no cabelo.
Quer saber, Belize é a capital do Brasil! Microondas? Pra que serve? Costa Rica, nunca ouvi falar. Aliás, abaixo da linha do Equador, existe alguma coisa de verdade ou é só especulação do tipo "existe vida em Marte"?
Amigo leitor, nós somos ETs!!! Tá lá, no meu visto de trabalho: Legal Alien.
Ué, e tem termo mais apropriado?
Indivíduos adjacentes: Clara.
O beijo está ganho quando um respira o mesmo ar que outro expirou, to catch a breath. Clara sabia que o beijo daquela noite já estava anunciado, ganhara a aposta, era questão de tempo apenas. E que aposta era essa que Clara queria vencer? Era uma aposta enviesada consigo mesma.
Não era simplesmente beijar alguém, era quase beijar ninguém, meticulosamente escolhido pra ser desimportante, pra não fazer diferença, pra não ligar nunca mais e, no dia seguinte, era só mais um risquinho na parede da cela onde Clara se escondia do amor, da paixão. Porém, apesar de ela ganhar essa aposta quase sempre, quase sempre, mal sabia ela (privilégios de narrador onisciente) que, apostando consigo, uma parte de si sempre perdia.
Chegou em casa, cantando vitória, com perfume de homem e cheiro de cigarro. Despiu-se em frente do espelho. Adorava seu umbigo, sua barriga, admirou-se nua, se achava bonita e, quando tirou o sutiã, viu uma marca roxa. Observou. Era um apertão que manchava sua branca pele. Poderia ser um polegar, poderia ser um beijo acalorado (e, a pior dúvida: poderia ter sido fruto da aposta de hoje ou da aposta passada também). O roxo no seio era prova irrefutável de que tudo aquilo que ela estava fazendo consigo a marcava visivelmente.
Por quê, Clara? Se achava-se tão bonita, se o espelho lhe mostrava tudo aquilo que sabia ser, se sabia mesmo tudo o que era e amava-se, por que sabotar-se assim? Cada beijo insignificante era mais um pedregulho na muralha reichiana que a separava de si mesma. Que a escondia do espelho, da imagem bonita de si nua. Pouco a pouco transformava-se em algo irreconhecível, ainda sem forma, sem nome, sem jeito. Às vezes Clara queria acreditar que era fruto da maturidade, da vida adulta, que estava crescendo e o mundo era assim mesmo. Não, não era. Era conseqüência da negligência que tinha consigo: beijar alguém sem importância convertia-se em não dar a devida importância a si mesma. E, apesar de admirar-se longamente nua, diante do espelho, de usar o melhor creme nos cabelos, perfume francês, sabonete importado, ao recostar-se aquela noite odiou-se por ter se deixado marcar daquela maneira violenta, no seio, a parte mais delicada e mais feminina do corpo da mulher.
E o que poderia ter sido um lindo e longo beijo, sob a lua cheia, coroado com uma chuva morna e o céu límpido do verão, era um momento insensível, vazio e ainda repleto de agressividade e não de carinho. Ela pensava que ganhara a aposta e pronto, podia beijar qualquer um. Mas a questão era outra. Será que o que Clara queria mesmo beijar qualquer um?
O beijo está ganho quando um respira o mesmo ar que outro expirou, to catch a breath. Clara sabia que o beijo daquela noite já estava anunciado, ganhara a aposta, era questão de tempo apenas. E que aposta era essa que Clara queria vencer? Era uma aposta enviesada consigo mesma.
Não era simplesmente beijar alguém, era quase beijar ninguém, meticulosamente escolhido pra ser desimportante, pra não fazer diferença, pra não ligar nunca mais e, no dia seguinte, era só mais um risquinho na parede da cela onde Clara se escondia do amor, da paixão. Porém, apesar de ela ganhar essa aposta quase sempre, quase sempre, mal sabia ela (privilégios de narrador onisciente) que, apostando consigo, uma parte de si sempre perdia.
Chegou em casa, cantando vitória, com perfume de homem e cheiro de cigarro. Despiu-se em frente do espelho. Adorava seu umbigo, sua barriga, admirou-se nua, se achava bonita e, quando tirou o sutiã, viu uma marca roxa. Observou. Era um apertão que manchava sua branca pele. Poderia ser um polegar, poderia ser um beijo acalorado (e, a pior dúvida: poderia ter sido fruto da aposta de hoje ou da aposta passada também). O roxo no seio era prova irrefutável de que tudo aquilo que ela estava fazendo consigo a marcava visivelmente.
Por quê, Clara? Se achava-se tão bonita, se o espelho lhe mostrava tudo aquilo que sabia ser, se sabia mesmo tudo o que era e amava-se, por que sabotar-se assim? Cada beijo insignificante era mais um pedregulho na muralha reichiana que a separava de si mesma. Que a escondia do espelho, da imagem bonita de si nua. Pouco a pouco transformava-se em algo irreconhecível, ainda sem forma, sem nome, sem jeito. Às vezes Clara queria acreditar que era fruto da maturidade, da vida adulta, que estava crescendo e o mundo era assim mesmo. Não, não era. Era conseqüência da negligência que tinha consigo: beijar alguém sem importância convertia-se em não dar a devida importância a si mesma. E, apesar de admirar-se longamente nua, diante do espelho, de usar o melhor creme nos cabelos, perfume francês, sabonete importado, ao recostar-se aquela noite odiou-se por ter se deixado marcar daquela maneira violenta, no seio, a parte mais delicada e mais feminina do corpo da mulher.
E o que poderia ter sido um lindo e longo beijo, sob a lua cheia, coroado com uma chuva morna e o céu límpido do verão, era um momento insensível, vazio e ainda repleto de agressividade e não de carinho. Ela pensava que ganhara a aposta e pronto, podia beijar qualquer um. Mas a questão era outra. Será que o que Clara queria mesmo beijar qualquer um?
Tuesday, July 08, 2003
Reality Check: Crônicas
Aqui é quase tudo igual. Quase.
Dizem "Buen Día" que só com um pinguinho de boa vontade é igualzinho ao nosso "Bom Dia" com o qual se pode replicar e ser muito bem compreendido. Tem até Caipirinha! Quer dizer, malemá... é sempre uma aposta no escuro quando se ouve um garçon cubano-colombiano-venezuelano-argentino dizer que ele sabe preparar a 'melhor' Caipirina. Ou então é assim você pede Caipirinha e alguém muito lá do fundo do bar diz que não tem, mas tem Mojito. E que porra mojito tem a ver com caipirinha! Rum com hortelã - pelamordedeus...
O problema, amiga, é ter que ceder àquele cetim brilhante em cores torturantes como turquesa ou pink, à lá De Millus, da Victoria's Secret. E já que é pra entrar na onda, melhor se tiver desconto do cartão da loja, é verdade, eu cedi, preenchi um formulário e tudo mais. E aí é que entra uma diferença básica, a tanga. Cautela. Tanga é o fio dental que a gente só usa na praia ("a gente" não, cara pálida, eu nunca usei fio dental, não tenho cacife...). Aqui a mulherada veste aquilo, aquele fiozinho -- popularmente apelidado pelo Faustão e outros domenicais do Brasil de "tapa-sexo", que nome lindo! -- o dia todo. Todo dia. A mulherada tem pavor de VPL, me explicou uma gringa. Visible Panty Line. Nossa, em toda minha vida, isso nunca foi uma preocupação muito grande. Vá lá combinar o sutiã com a calcinha e que sejam de cores claras se a roupa for também, mas é só. VPL é o problema. O acetinado chocante e o elástico grosseiro que custam entre 20 e 60 dólares não é... Ai, Valisére, me socorra!
Mas, como quem não pode vencê-los, junta-se a eles, eu comprei a tanga. The Thong. E fui feliz de saia branca curtir minha tarde de domingo -- VPL Free. Uma sensação de liberdade, de coragem, de não estar usando nada -- uma coisa assim Lilian Ramos -- me encheu de alegria. Encontrei um amigo: "You look so Miami!" -- Meu Deus será que ele viu que eu estava usando minha primeira tanga? Impossível, nada se vê...
Virei fã da tanga, dos 15% de desconto do cartão Victoria's Secret e, fazer o quê, quando não tem Caipirinha, eu tomo Mojito mesmo...E agora preciso me acostumar com o jogging, porque se no futuro eu tirar minha roupa na frente de alguém, melhor fazer jus ao mito do bum-bum da mulher brasileira...
Aqui é quase tudo igual. Quase.
Dizem "Buen Día" que só com um pinguinho de boa vontade é igualzinho ao nosso "Bom Dia" com o qual se pode replicar e ser muito bem compreendido. Tem até Caipirinha! Quer dizer, malemá... é sempre uma aposta no escuro quando se ouve um garçon cubano-colombiano-venezuelano-argentino dizer que ele sabe preparar a 'melhor' Caipirina. Ou então é assim você pede Caipirinha e alguém muito lá do fundo do bar diz que não tem, mas tem Mojito. E que porra mojito tem a ver com caipirinha! Rum com hortelã - pelamordedeus...
O problema, amiga, é ter que ceder àquele cetim brilhante em cores torturantes como turquesa ou pink, à lá De Millus, da Victoria's Secret. E já que é pra entrar na onda, melhor se tiver desconto do cartão da loja, é verdade, eu cedi, preenchi um formulário e tudo mais. E aí é que entra uma diferença básica, a tanga. Cautela. Tanga é o fio dental que a gente só usa na praia ("a gente" não, cara pálida, eu nunca usei fio dental, não tenho cacife...). Aqui a mulherada veste aquilo, aquele fiozinho -- popularmente apelidado pelo Faustão e outros domenicais do Brasil de "tapa-sexo", que nome lindo! -- o dia todo. Todo dia. A mulherada tem pavor de VPL, me explicou uma gringa. Visible Panty Line. Nossa, em toda minha vida, isso nunca foi uma preocupação muito grande. Vá lá combinar o sutiã com a calcinha e que sejam de cores claras se a roupa for também, mas é só. VPL é o problema. O acetinado chocante e o elástico grosseiro que custam entre 20 e 60 dólares não é... Ai, Valisére, me socorra!
Mas, como quem não pode vencê-los, junta-se a eles, eu comprei a tanga. The Thong. E fui feliz de saia branca curtir minha tarde de domingo -- VPL Free. Uma sensação de liberdade, de coragem, de não estar usando nada -- uma coisa assim Lilian Ramos -- me encheu de alegria. Encontrei um amigo: "You look so Miami!" -- Meu Deus será que ele viu que eu estava usando minha primeira tanga? Impossível, nada se vê...
Virei fã da tanga, dos 15% de desconto do cartão Victoria's Secret e, fazer o quê, quando não tem Caipirinha, eu tomo Mojito mesmo...E agora preciso me acostumar com o jogging, porque se no futuro eu tirar minha roupa na frente de alguém, melhor fazer jus ao mito do bum-bum da mulher brasileira...
Monday, July 07, 2003
Linhas cruzadas
-- E aí? - disse Sofia com uma curiosidade capaz de resistir a toda trilha sonora de aspirador e criança chorando no fundo, do seu lado do telefonema.
-- E aí nada - respondeu Clara, lacônica - nada mesmo, ele não disse nada, simplesmente levantou da mesa, estendeu a mão, nem pra me dar um beijo... me cumprimentou e foi-se embora.
-- Virou e foi embora?
-- É. Também perdeu a chance da vida dele. Perdeu, não quero nunca mais vê-lo na minha frente.
Era mentira. E Clara revisava logo em seguida seu último comentário:
-- Será que eles sabem, Sofia?
-- Do quê?
-- Que a gente já escolheu o modelo do vestido de noiva e nome dos filhos? Que a gente assina com o sobrenome deles pra ver se combina com o nosso nome? Que a gente revive a conversa na frente do espelho e inventa 30 tiradas mais espirituosas que a gente queria ter dito ao invés dos "hã-hãs"? E, que depois de todo o mico, ainda por cima, a gente discute e conta tudo com riqueza de detalhes pras amigas? Será que eles desconfiam? Ai chega, melhor mudar de assunto...
Do outro lado da linha uma Nívea chorosa e uma Sofia impaciente...
-- E o Peixoto?
-- Tá ótimo. Se instalou completamente no meu apartamento. Sofia, agora não tem mais volta. Parece que sou eu que estou aqui de favor. Realmente não consigo entender como pude viver sem Peixoto até agora...
-- Clara Maria, só você...
-- Sofia Eugênia, vou deixar você com seus afazeres maternos... Depois falamos. Beijo.
-- Beijo e cuida bem do meu gato.
E Clara pegou Peixoto no colo, abraçou-o todinho até ele reclamar com um miado desafinado.
-- Peixoto, Peixoto... Será que eles sabem?
E o gato respondeu prontamente virando de costas e indo embora com seu passo lento e elegante. Sem nem olhar pra trás.
-- Tá vendo! Homem é tudo igual!
-- E aí? - disse Sofia com uma curiosidade capaz de resistir a toda trilha sonora de aspirador e criança chorando no fundo, do seu lado do telefonema.
-- E aí nada - respondeu Clara, lacônica - nada mesmo, ele não disse nada, simplesmente levantou da mesa, estendeu a mão, nem pra me dar um beijo... me cumprimentou e foi-se embora.
-- Virou e foi embora?
-- É. Também perdeu a chance da vida dele. Perdeu, não quero nunca mais vê-lo na minha frente.
Era mentira. E Clara revisava logo em seguida seu último comentário:
-- Será que eles sabem, Sofia?
-- Do quê?
-- Que a gente já escolheu o modelo do vestido de noiva e nome dos filhos? Que a gente assina com o sobrenome deles pra ver se combina com o nosso nome? Que a gente revive a conversa na frente do espelho e inventa 30 tiradas mais espirituosas que a gente queria ter dito ao invés dos "hã-hãs"? E, que depois de todo o mico, ainda por cima, a gente discute e conta tudo com riqueza de detalhes pras amigas? Será que eles desconfiam? Ai chega, melhor mudar de assunto...
Do outro lado da linha uma Nívea chorosa e uma Sofia impaciente...
-- E o Peixoto?
-- Tá ótimo. Se instalou completamente no meu apartamento. Sofia, agora não tem mais volta. Parece que sou eu que estou aqui de favor. Realmente não consigo entender como pude viver sem Peixoto até agora...
-- Clara Maria, só você...
-- Sofia Eugênia, vou deixar você com seus afazeres maternos... Depois falamos. Beijo.
-- Beijo e cuida bem do meu gato.
E Clara pegou Peixoto no colo, abraçou-o todinho até ele reclamar com um miado desafinado.
-- Peixoto, Peixoto... Será que eles sabem?
E o gato respondeu prontamente virando de costas e indo embora com seu passo lento e elegante. Sem nem olhar pra trás.
-- Tá vendo! Homem é tudo igual!
Wednesday, July 02, 2003
Cheguei em casa, tirei meus sapatos e, quando estava pronta para sofrer minha hipnose televisiva diária, toca o telefone. Era Amélia. E Amélia é um personagem diferente. Ela me liga e me manda escrever a história dela. Ou melhor, ela me conta, ela me diz tudo e no final, depois de meu longo silêncio obediente, escutando, eu digo "claro, escrevo". Amélia se impôs a história e eu, que não posso ser Amélia, nem viver a sua vida, a escrevo (ou sonho). Viu Amélia? Taí.
Correntes transversais
Tirou as sandálias desamarrou a toalha e correu para o mar. Jogou-se nas águas, mergulhou e já depois da arrebentação das ondas, acenou lá do fundo.
-- Tá gelada?
-- Vem logo! Vem!
Amélia, pequena, boiando no horizonte, era razão suficiente pra Laércio desfazer-se da camisa, dos óculos e enfrentar o frio do mar. Logo estava lá perto e beijavam-se como nunca. Nunca? É, nunca haviam se beijado no mar, com a boca gelada e meio salgada, na parte calma do oceano, sem dar pé, no silêncio absoluto, no final da tarde, contra o céu vermelho... era tudo sonho.
Se fosse sonho de Amélia, importante era notar a pergunta que Laércio fazia a ela sobre a temperatura da água. Ela já havia pulado de cabeça e ganhado as ondas, o oceano, e ele titubeou. Se o sonho fosse de Laércio, focaríamos na Amélia pequenina acenando lá do fundo e ele se apressando em entrar no mar a despeito de todo o resto, por um beijo que fosse. Amélia atirava-se na frente, mergulhava e chamava Laércio. Ele preocupava-se porém, mesmo sem saber a temperatura, desfazia-se das roupas e jogava-se no mar pra se juntar a Amélia.
E juntos, no final, depois da arrebentação das ondas (que é bagunça, barulho), depois de desfazer-se das roupas e tudo aquilo que atrapalhava (e que pesaria demais com a água), naquele mar tranquilo, contra aquele céu vermelho, aquele beijo calmo, gelado e salgado selava o sonho compartilhado pelos dois. E terminava aí. Ou será que começava aí?
Tirou as sandálias desamarrou a toalha e correu para o mar. Jogou-se nas águas, mergulhou e já depois da arrebentação das ondas, acenou lá do fundo.
-- Tá gelada?
-- Vem logo! Vem!
Amélia, pequena, boiando no horizonte, era razão suficiente pra Laércio desfazer-se da camisa, dos óculos e enfrentar o frio do mar. Logo estava lá perto e beijavam-se como nunca. Nunca? É, nunca haviam se beijado no mar, com a boca gelada e meio salgada, na parte calma do oceano, sem dar pé, no silêncio absoluto, no final da tarde, contra o céu vermelho... era tudo sonho.
Se fosse sonho de Amélia, importante era notar a pergunta que Laércio fazia a ela sobre a temperatura da água. Ela já havia pulado de cabeça e ganhado as ondas, o oceano, e ele titubeou. Se o sonho fosse de Laércio, focaríamos na Amélia pequenina acenando lá do fundo e ele se apressando em entrar no mar a despeito de todo o resto, por um beijo que fosse. Amélia atirava-se na frente, mergulhava e chamava Laércio. Ele preocupava-se porém, mesmo sem saber a temperatura, desfazia-se das roupas e jogava-se no mar pra se juntar a Amélia.
E juntos, no final, depois da arrebentação das ondas (que é bagunça, barulho), depois de desfazer-se das roupas e tudo aquilo que atrapalhava (e que pesaria demais com a água), naquele mar tranquilo, contra aquele céu vermelho, aquele beijo calmo, gelado e salgado selava o sonho compartilhado pelos dois. E terminava aí. Ou será que começava aí?
Tuesday, July 01, 2003
Monday, June 30, 2003
Indivíduos Adjacentes: Sofia.
Entrava no banheiro apressada. Não, não era bexiga, mas a vontade de chorar que a fazia correr lá pra dentro. Sofia sentava na tampa do vaso, curvava-se, levava as mãos a cabeça e só depois de longos soluços - silenciosos, como só ela sabia soluçar em silêncio - ia começar a tentar entender porque estava chorando. Era tudo. Era tudo a sua volta que a fazia chorar. Não que tudo fosse potencialmente triste, mas tudo a atingia de alguma forma e a única reação que ela conseguia ter diante de qualquer estímulo neste período de sua vida era o choro. Nunca trancava a porta do banheiro, porque se acontecesse alguma coisa poderia sair rapidamente (mas lá no fundo sabia que na verdade tinha medo de que acontecesse algo com ela lá dentro e se a porta estivesse trancada, demorariam mais para ouví-la e resgatá-la).
Tinha vergonha de se sentir assim. Lavava o rosto repetidas vezes com água bem fria pra não revelar os olhos inchados. Porém Sofia já intuia que seu pequeno intervalo estava prestes a terminar e ficava diante do espelho, falando consigo mesma pelos minutos restantes.
Como um ator nas coxias do teatro espera os três avisos sonoros, ela também esperava o seu sinal para sair dali. Repassando em sua mente, não o texto da peça, mas um pequeno mantra de afazeres e tarefas e tudo o que ela não podia esquecer. Quando ouviu seu sinal, inconfundível, apressou-se em sair do banheiro e desabotoou a blusa no caminho. Debruçou sobre a grade do berço e Nívea agora já se acalmava pois percebia a chegada da mãe. Colocou-a perto do coração, sentou-se perto da janela para amamentar. O papel de mãe era para Sofia uma coisa surpreendente: a solidão de uma no banheiro era interrompida pela solidão da outra no quarto (e a fome da mamada da tarde ou uma fralda suja) e logo sabiam que precisavam estar juntas de novo para que tudo se resolvesse, a dor acabasse, a fome passasse, a solidão sumisse. Só Nívea podia tirar Sofia do banheiro com seu poder recém-nascido bem como, só Sofia podia saciar a fome e cuidar da pequena Nívea, só ela sabia, e era verdade, distingüir se o chorinho estridente era fome, dor de ouvido, cólicas ou troca de fralda.
Pensando bem, Sofia entendia como seus parâmetros haviam mudado: todo o resto, tudo o que não fosse Nívea, era mais feio e triste e só poderia ser razão pra chorar de vez em quando mesmo.
Entrava no banheiro apressada. Não, não era bexiga, mas a vontade de chorar que a fazia correr lá pra dentro. Sofia sentava na tampa do vaso, curvava-se, levava as mãos a cabeça e só depois de longos soluços - silenciosos, como só ela sabia soluçar em silêncio - ia começar a tentar entender porque estava chorando. Era tudo. Era tudo a sua volta que a fazia chorar. Não que tudo fosse potencialmente triste, mas tudo a atingia de alguma forma e a única reação que ela conseguia ter diante de qualquer estímulo neste período de sua vida era o choro. Nunca trancava a porta do banheiro, porque se acontecesse alguma coisa poderia sair rapidamente (mas lá no fundo sabia que na verdade tinha medo de que acontecesse algo com ela lá dentro e se a porta estivesse trancada, demorariam mais para ouví-la e resgatá-la).
Tinha vergonha de se sentir assim. Lavava o rosto repetidas vezes com água bem fria pra não revelar os olhos inchados. Porém Sofia já intuia que seu pequeno intervalo estava prestes a terminar e ficava diante do espelho, falando consigo mesma pelos minutos restantes.
Como um ator nas coxias do teatro espera os três avisos sonoros, ela também esperava o seu sinal para sair dali. Repassando em sua mente, não o texto da peça, mas um pequeno mantra de afazeres e tarefas e tudo o que ela não podia esquecer. Quando ouviu seu sinal, inconfundível, apressou-se em sair do banheiro e desabotoou a blusa no caminho. Debruçou sobre a grade do berço e Nívea agora já se acalmava pois percebia a chegada da mãe. Colocou-a perto do coração, sentou-se perto da janela para amamentar. O papel de mãe era para Sofia uma coisa surpreendente: a solidão de uma no banheiro era interrompida pela solidão da outra no quarto (e a fome da mamada da tarde ou uma fralda suja) e logo sabiam que precisavam estar juntas de novo para que tudo se resolvesse, a dor acabasse, a fome passasse, a solidão sumisse. Só Nívea podia tirar Sofia do banheiro com seu poder recém-nascido bem como, só Sofia podia saciar a fome e cuidar da pequena Nívea, só ela sabia, e era verdade, distingüir se o chorinho estridente era fome, dor de ouvido, cólicas ou troca de fralda.
Pensando bem, Sofia entendia como seus parâmetros haviam mudado: todo o resto, tudo o que não fosse Nívea, era mais feio e triste e só poderia ser razão pra chorar de vez em quando mesmo.
Friday, June 27, 2003
Mundos paralelos, indivíduos adjacentes - Delta de Vênus
O primeiro triângulo da história se estabelece a partir de Clara, Sofia e Dora. A base do triângulo é formada por Clara e Sofia unidas por uma reta firme que representava a compreensão total entre as duas. O terceiro vértice era Dora sozinha no alto, um ponto instável, às vezes mais distante, às vezes mais próxima.
Se Clara e Sofia haviam se aproximado por uma incrível compreensão silenciosa e mútua, o que as atraía para Dora era o oposto: incompreensão total. Dora era o contrário das duas ao mesmo tempo e, sendo assim, também era parte de cada uma delas como o negativo de uma foto ou o lado apagado da Lua. Três ângulos, três vértices distintos que formavam o mesmo polígono, três vidas que colidiram em uma mesma figura e se desdobram em muitas mais retas, tangentes, transversais...
A tentativa de suicídio de Dora era o motivo para a primeira reunião das três, num quarto excessivamente branco. Sofia, sentada na cadeira mais próxima do leito, observava as amigas. Clara na janela, alternando entre a conversa e o lado de fora. Sofia achava Clara parecida com um gato, que gosta da boa vida, mas sempre vive o conflito de jogar tudo pro alto e ganhar o mundo, a liberdade. E, por mais que não jogasse tudo pro alto, nunca seria totalmente domesticado. Dora, na cama, obviamente, amarrada ainda, pra não fazer mais nenhuma besteira contra si, abria os olhos e murmurava algo e voltava a dormir. Sofia desconfiava que era seu estratagema pra não enfrentar as amigas, a realidade, enfim a vida. Para Sofia, o problema de tudo isso, da amiga ter querido morrer, era perceber essa vontade mesma de morrer e ficava com medo de que um dia ela mesma sucumbisse a dor e intentasse contra sua própria vida também. Clara não tinha tanta compaixão e da janela procurava por todos os cantos uma justificava um pouco racional pra tudo aquilo. Não conseguia admitir uma coisa daquelas, não tinha pena de Dora, estava brava, estava com raiva, não conseguia entender nada daquilo, era como se suicídio fosse uma palavra estrangeira numa língua sobre a qual Clara não tivesse nenhum conhecimento.
Quando acordou de verdade, Dora encontrou-se sozinha, Clara e Sofia já haviam ido embora. Descansou os olhos nas margaridas perto da janela, onde antes estava Clara. E, depois de alguns segundos, sorriu ao perceber que, na falta de um vaso, as amigas haviam posto o ramalhete de flores na comadre. Seu primeiro sorriso "pós-mortis" fora em razão da brincadeira das amigas. E de leve, bem de leve, pelas flores, pelo sorriso e pelas amigas, realizava em si a vontade de viver novamente.
O primeiro triângulo da história se estabelece a partir de Clara, Sofia e Dora. A base do triângulo é formada por Clara e Sofia unidas por uma reta firme que representava a compreensão total entre as duas. O terceiro vértice era Dora sozinha no alto, um ponto instável, às vezes mais distante, às vezes mais próxima.
Se Clara e Sofia haviam se aproximado por uma incrível compreensão silenciosa e mútua, o que as atraía para Dora era o oposto: incompreensão total. Dora era o contrário das duas ao mesmo tempo e, sendo assim, também era parte de cada uma delas como o negativo de uma foto ou o lado apagado da Lua. Três ângulos, três vértices distintos que formavam o mesmo polígono, três vidas que colidiram em uma mesma figura e se desdobram em muitas mais retas, tangentes, transversais...
A tentativa de suicídio de Dora era o motivo para a primeira reunião das três, num quarto excessivamente branco. Sofia, sentada na cadeira mais próxima do leito, observava as amigas. Clara na janela, alternando entre a conversa e o lado de fora. Sofia achava Clara parecida com um gato, que gosta da boa vida, mas sempre vive o conflito de jogar tudo pro alto e ganhar o mundo, a liberdade. E, por mais que não jogasse tudo pro alto, nunca seria totalmente domesticado. Dora, na cama, obviamente, amarrada ainda, pra não fazer mais nenhuma besteira contra si, abria os olhos e murmurava algo e voltava a dormir. Sofia desconfiava que era seu estratagema pra não enfrentar as amigas, a realidade, enfim a vida. Para Sofia, o problema de tudo isso, da amiga ter querido morrer, era perceber essa vontade mesma de morrer e ficava com medo de que um dia ela mesma sucumbisse a dor e intentasse contra sua própria vida também. Clara não tinha tanta compaixão e da janela procurava por todos os cantos uma justificava um pouco racional pra tudo aquilo. Não conseguia admitir uma coisa daquelas, não tinha pena de Dora, estava brava, estava com raiva, não conseguia entender nada daquilo, era como se suicídio fosse uma palavra estrangeira numa língua sobre a qual Clara não tivesse nenhum conhecimento.
Quando acordou de verdade, Dora encontrou-se sozinha, Clara e Sofia já haviam ido embora. Descansou os olhos nas margaridas perto da janela, onde antes estava Clara. E, depois de alguns segundos, sorriu ao perceber que, na falta de um vaso, as amigas haviam posto o ramalhete de flores na comadre. Seu primeiro sorriso "pós-mortis" fora em razão da brincadeira das amigas. E de leve, bem de leve, pelas flores, pelo sorriso e pelas amigas, realizava em si a vontade de viver novamente.
Thursday, June 26, 2003
Tua palavra
Sonhei que estava lançando um livro e via você passar pela vitrine da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Você ficava surpreso e folheava meu livro com cara de "eu achei que iam me publicar antes de você". E com toda arrogância do mundo me estendia uma mão e dizia "Lembra de mim?".
(E eu lembrava de cada palavra tua neste interlúdio onírico, tudo parava e eu olhava pra trás e via quilômetros de páginas escritas, imaginando tua mão direita com a caneta passando por cima de tudo, forte, decidida, assertiva, você de óculos, vista cansada, resistindo e escrevendo, escrevendo, escrevendo, e eu do tamanho de um botão caminhando nas entrelinhas...)
Pra responder no mesmo tom, apertava sua direita firme e penetrava as lentes de seus óculos com cara de "tá vendo, eu consegui".
Sem nem disfarçar seus ares de "não vou ler isso nem no banheiro" me oferecia um exemplar, puxava uma caneta do bolso, desafiando-me a autografá-lo. E, bem na hora em que ia começar a escrever uma dedicatória, me lembro que era tudo pra você, que o livro eu tinha escrito pra você, pra te provar que eu era capaz. E tudo se desfazia de repente: livraria, livros, inclusive o Conjunto Nacional, e eu voltava a ser uma mera leitora sua. Nada além de um par de olhos a mais e nos fitávamos naquele sonho, como foi na realidade, sem palavras que coubessem no silêncio cursivo, (esse talvez seja o mal de quem se lê, de quem se escreve). Nem um pingo num "i" se ouvia. E, sem querer, te revelava telepaticamente que foi logo no teu primeiro texto que, com o poder da tua vírgula meticulosa, meu coração parou e, no meio do teu aposto, resolveu cair de amores por você.
Sonhei que estava lançando um livro e via você passar pela vitrine da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Você ficava surpreso e folheava meu livro com cara de "eu achei que iam me publicar antes de você". E com toda arrogância do mundo me estendia uma mão e dizia "Lembra de mim?".
(E eu lembrava de cada palavra tua neste interlúdio onírico, tudo parava e eu olhava pra trás e via quilômetros de páginas escritas, imaginando tua mão direita com a caneta passando por cima de tudo, forte, decidida, assertiva, você de óculos, vista cansada, resistindo e escrevendo, escrevendo, escrevendo, e eu do tamanho de um botão caminhando nas entrelinhas...)
Pra responder no mesmo tom, apertava sua direita firme e penetrava as lentes de seus óculos com cara de "tá vendo, eu consegui".
Sem nem disfarçar seus ares de "não vou ler isso nem no banheiro" me oferecia um exemplar, puxava uma caneta do bolso, desafiando-me a autografá-lo. E, bem na hora em que ia começar a escrever uma dedicatória, me lembro que era tudo pra você, que o livro eu tinha escrito pra você, pra te provar que eu era capaz. E tudo se desfazia de repente: livraria, livros, inclusive o Conjunto Nacional, e eu voltava a ser uma mera leitora sua. Nada além de um par de olhos a mais e nos fitávamos naquele sonho, como foi na realidade, sem palavras que coubessem no silêncio cursivo, (esse talvez seja o mal de quem se lê, de quem se escreve). Nem um pingo num "i" se ouvia. E, sem querer, te revelava telepaticamente que foi logo no teu primeiro texto que, com o poder da tua vírgula meticulosa, meu coração parou e, no meio do teu aposto, resolveu cair de amores por você.
Wednesday, June 25, 2003
Fronteira
(...) "Os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.
Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?
(...) "Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que apenas me limitei a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além do meu eu).
(...)"O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo."
Milan Kundera in A insustentável leveza do ser
(...) "Os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.
Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?
(...) "Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que apenas me limitei a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além do meu eu).
(...)"O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo."
Milan Kundera in A insustentável leveza do ser
Con Lexotan es posible!
-- Juliana!
Saí do meu transe momentâneo e encontrei dois braços vindo de encontro a mim com um comprimidinho e um copinho d'água. Minhas mãos apressaram-se em estender-se e aceitar a oferta. No entanto, puxei o breque de mão e, antes de mesmo tocar na pequena e misteriosa pílula, perguntei:
-- O que que é isso?
Nesse exato momento todos os meus neurônios e sinapses gritavam pra eu calar a boca e mandar goela abaixo o comprimido, seja lá o que fosse, dane-se, a gente quer remedinho!
-- É um calmante.
Juro por Deus que hesitei. Mas nessa hora todos os meus nervos aclamavam por piedade, minha boca esboçava um sorriso involuntário e minhas mãos foram mais rápidas. Antes que eu pudesse refletir (refletir pra quê? pra quê? ô mulher complicada, toma o calmante e pronto!), antes de eu perguntar qual era o princípio ativo, se havia efeitos colaterais (efeito colateral de calmante? tenha santa paciência! calmante é uma pílula feita de efeitos colaterais! pra quê tanta frescura, toma logo!), a direita arremessou a pílula pra dentro da boca, a esquerda deu cobertura com a água e meu primeiro calmante começava sua jornada apaziguadora por dentro de mim. Em poucos minutos todas as minhas células regozijavam com esta calma sintética, deliciosa, quando um pensamento sabotador apareceu. Será que poderia voltar guiando pra casa?
Ah... não durou nem 30 segundos essa preocupação e de alguma maneira, sobre a qual não guardo registros, eu voltei guiando pra casa e quando percebi que estava um pouquinho mais consciente morri de dar risada.
-- Juliana!
Saí do meu transe momentâneo e encontrei dois braços vindo de encontro a mim com um comprimidinho e um copinho d'água. Minhas mãos apressaram-se em estender-se e aceitar a oferta. No entanto, puxei o breque de mão e, antes de mesmo tocar na pequena e misteriosa pílula, perguntei:
-- O que que é isso?
Nesse exato momento todos os meus neurônios e sinapses gritavam pra eu calar a boca e mandar goela abaixo o comprimido, seja lá o que fosse, dane-se, a gente quer remedinho!
-- É um calmante.
Juro por Deus que hesitei. Mas nessa hora todos os meus nervos aclamavam por piedade, minha boca esboçava um sorriso involuntário e minhas mãos foram mais rápidas. Antes que eu pudesse refletir (refletir pra quê? pra quê? ô mulher complicada, toma o calmante e pronto!), antes de eu perguntar qual era o princípio ativo, se havia efeitos colaterais (efeito colateral de calmante? tenha santa paciência! calmante é uma pílula feita de efeitos colaterais! pra quê tanta frescura, toma logo!), a direita arremessou a pílula pra dentro da boca, a esquerda deu cobertura com a água e meu primeiro calmante começava sua jornada apaziguadora por dentro de mim. Em poucos minutos todas as minhas células regozijavam com esta calma sintética, deliciosa, quando um pensamento sabotador apareceu. Será que poderia voltar guiando pra casa?
Ah... não durou nem 30 segundos essa preocupação e de alguma maneira, sobre a qual não guardo registros, eu voltei guiando pra casa e quando percebi que estava um pouquinho mais consciente morri de dar risada.
Tuesday, June 17, 2003
Indivíduos adjacentes: Dora.
Com a mala pesada atrasando seu passo apertado, atravessava o aeroporto. Enquanto o corpo avançava pelas esteiras rolantes, a mente procurava em vão uma razão pra ficar. Era Dora que, lá fundo, não queria resistir. Estava louca pra deixar barato, pra fraquejar de novo, era mais fácil, rápido e indolor.
Já estava no táxi agora, o aeroporto ficara pra trás. Recolocou tudo no armário correndo, sentou no sofá, olhou pela janela, ligou a televisão, o rádio e o liquidificador. Fez uma vitamina, rasgou a passagem. E no meio do mar de inconsciência que silenciava sua cabeça, seu estômago manifestou-se, não sabia bem a favor de quê, mas o corpo ainda queria lutar. O seu ventre pedia algo, há muito tempo. Dora, sem querer ouví-lo, e para silenciar de vez as entranhas intrometidas, tomou 50 cápsulas de não-sei-o-quê.
Quando acordou da lavagem estomacal, de infeliz tinha se feito louca: a vida, da qual havia feito pouco caso, doía por todo o seu corpo. E o pouco de autonomia que uma morta-viva poderia ter, lhe tiravam agora, amarrada na cama, com alimentação intravenosa. Sentiu nojo de si por provocar pena nos outros e até quis brigar. Foi então que o psiquiatra entrou no quarto e animou a família. Disse que ela iria ter alta logo, enquanto Dora cuspia longe o coquetel de anti-depressivos que tentavam lhe dar.
Com a mala pesada atrasando seu passo apertado, atravessava o aeroporto. Enquanto o corpo avançava pelas esteiras rolantes, a mente procurava em vão uma razão pra ficar. Era Dora que, lá fundo, não queria resistir. Estava louca pra deixar barato, pra fraquejar de novo, era mais fácil, rápido e indolor.
Já estava no táxi agora, o aeroporto ficara pra trás. Recolocou tudo no armário correndo, sentou no sofá, olhou pela janela, ligou a televisão, o rádio e o liquidificador. Fez uma vitamina, rasgou a passagem. E no meio do mar de inconsciência que silenciava sua cabeça, seu estômago manifestou-se, não sabia bem a favor de quê, mas o corpo ainda queria lutar. O seu ventre pedia algo, há muito tempo. Dora, sem querer ouví-lo, e para silenciar de vez as entranhas intrometidas, tomou 50 cápsulas de não-sei-o-quê.
Quando acordou da lavagem estomacal, de infeliz tinha se feito louca: a vida, da qual havia feito pouco caso, doía por todo o seu corpo. E o pouco de autonomia que uma morta-viva poderia ter, lhe tiravam agora, amarrada na cama, com alimentação intravenosa. Sentiu nojo de si por provocar pena nos outros e até quis brigar. Foi então que o psiquiatra entrou no quarto e animou a família. Disse que ela iria ter alta logo, enquanto Dora cuspia longe o coquetel de anti-depressivos que tentavam lhe dar.
Friday, June 13, 2003
De volta ao presente (ou Tupperware fedido)
Cheguei em casa morrendo de sede. Ao abrir a geladeira, o odor gélido porém fedido me avisava que eu tinha ficado longe de casa tempo demais.
Era um tupperware com sopa de cenora e repolho.
E, como tudo que é Passado, devia ter ficado lá, longe, preso no tempo. Deveria ter se esgotado inteiramente naquele dia longínquo em que fiz a sopa para jantar. Mas, como todo Passado que não se esgotou completamente, que sobrou quietinho no fundo da nossa gelada memória, chega uma hora em que é necessário lidar com os restos que não tivemos força, apetite ou coragem pra digerir antes.
Ninguém escapa do Tupperware da Memória. É preciso confrontar os restos temidos e o cheiro terrível daquilo que quisemos esconder, esquecer ou simplesmente guardar com intenções pouco claras.
Sempre que guardamos esses pedaços incômodos da nossa história como quem não quer nada, devemos saber que o Passado, a qualquer momento, irá se impor, com o risco de contaminar o presente também. E, se buscamos voluntariamente o Passado, temos que enfrentar o cheiro de velho e de podre que ele tem.
(Juro que eu pensei em tudo isto ao chegar de Boston, enquanto de fato lavava o tupperware fedido. Vai ver que o odor de transubstanciação da matéria me subiu a cabeça...)
Cheguei em casa morrendo de sede. Ao abrir a geladeira, o odor gélido porém fedido me avisava que eu tinha ficado longe de casa tempo demais.
Era um tupperware com sopa de cenora e repolho.
E, como tudo que é Passado, devia ter ficado lá, longe, preso no tempo. Deveria ter se esgotado inteiramente naquele dia longínquo em que fiz a sopa para jantar. Mas, como todo Passado que não se esgotou completamente, que sobrou quietinho no fundo da nossa gelada memória, chega uma hora em que é necessário lidar com os restos que não tivemos força, apetite ou coragem pra digerir antes.
Ninguém escapa do Tupperware da Memória. É preciso confrontar os restos temidos e o cheiro terrível daquilo que quisemos esconder, esquecer ou simplesmente guardar com intenções pouco claras.
Sempre que guardamos esses pedaços incômodos da nossa história como quem não quer nada, devemos saber que o Passado, a qualquer momento, irá se impor, com o risco de contaminar o presente também. E, se buscamos voluntariamente o Passado, temos que enfrentar o cheiro de velho e de podre que ele tem.
(Juro que eu pensei em tudo isto ao chegar de Boston, enquanto de fato lavava o tupperware fedido. Vai ver que o odor de transubstanciação da matéria me subiu a cabeça...)
Thursday, June 12, 2003
Indivíduos transversais
Amélia estava só, no seu canto e um belo dia engajou numa conversa sobre os anos 80 com Laércio. Morreram de rir juntos com recordações distantes do "Pogobol", do "Gênius", "Merlin" e enfim todo o rol de brinquedos produzidos naquela década emblemática.
E o apelo do passado semelhante dos dois, a identificação que um teve com o outro, fez surgir o interesse mútuo.
O passado é assim, irresistível. É culpa desse conforto universal que se sente quando se encontra em outra pessoa experiências semelhantes e coincidências e piadas e lembranças. Dá aquele gostinho de "poderíamos ter nos conhecido há tanto tempo"... E foi isso que Amélia disse num suspiro:
"Laércio, será que eu já não te vi antes, em algum momento há...sei lá, 15 anos atrás?"
Laércio entendeu tudo. E a partir dali fez o contato mais intenso, diário e escrito. Escreviam-se sempre pela necessidade imposta pela distância. Nem estavam tão distantes assim, mas os dois sabiam que esta distância era condição sinequânon daquela amizade. Pois as alianças que usavam, cada um em seu dedo anular esquerdo, tinham seu par em outra casa, em outra mesa, em outra relação. Mas não convém falar de algo que Amélia e Laércio não estavam prontos pra enfrentar. Nem sabiam se queriam enfrentar.
"Ah, Amélia...se eu tivesse te visto antes..."
Amélia estava só, no seu canto e um belo dia engajou numa conversa sobre os anos 80 com Laércio. Morreram de rir juntos com recordações distantes do "Pogobol", do "Gênius", "Merlin" e enfim todo o rol de brinquedos produzidos naquela década emblemática.
E o apelo do passado semelhante dos dois, a identificação que um teve com o outro, fez surgir o interesse mútuo.
O passado é assim, irresistível. É culpa desse conforto universal que se sente quando se encontra em outra pessoa experiências semelhantes e coincidências e piadas e lembranças. Dá aquele gostinho de "poderíamos ter nos conhecido há tanto tempo"... E foi isso que Amélia disse num suspiro:
"Laércio, será que eu já não te vi antes, em algum momento há...sei lá, 15 anos atrás?"
Laércio entendeu tudo. E a partir dali fez o contato mais intenso, diário e escrito. Escreviam-se sempre pela necessidade imposta pela distância. Nem estavam tão distantes assim, mas os dois sabiam que esta distância era condição sinequânon daquela amizade. Pois as alianças que usavam, cada um em seu dedo anular esquerdo, tinham seu par em outra casa, em outra mesa, em outra relação. Mas não convém falar de algo que Amélia e Laércio não estavam prontos pra enfrentar. Nem sabiam se queriam enfrentar.
"Ah, Amélia...se eu tivesse te visto antes..."
Wednesday, June 04, 2003
Indivíduos adjacentes: Clara e Sofia
Sofia, certa manhã, quase bateu o carro, perdida no mundo das idéias e entendeu o que era reação em cadeia. Os carros, os sonhos e puft!: a realidade. Foi procurar um psicólogo.
Chegou no consultório um dia e deu de cara com dois olhos vermelhos e um nariz inchado. E aquela pessoa soluçante pediu-lhe um lenço. Sofia sorteou o pacote de kleenex de dentro da bolsa e estendeu para a moça do outro lado da sala de espera.
-- Tem dia que é assim (glup)... Meu nome é Clara (glup).
Ver Clara chorando copiosamente naquela saleta, onde era impossível olhar para outro lado ou ignorar sua tristeza, trouxe um certo alívio a Sofia. Ela comprovava a dor que também sentia, sem nome, sem razão certa, em outra pessoa. A amizade foi instantânea depois da compaixão de uma pela outra: Clara por revelar-se inteiramente e Sofia por dividir a dor e os lenços. E foi assim.
Sofia, certa manhã, quase bateu o carro, perdida no mundo das idéias e entendeu o que era reação em cadeia. Os carros, os sonhos e puft!: a realidade. Foi procurar um psicólogo.
Chegou no consultório um dia e deu de cara com dois olhos vermelhos e um nariz inchado. E aquela pessoa soluçante pediu-lhe um lenço. Sofia sorteou o pacote de kleenex de dentro da bolsa e estendeu para a moça do outro lado da sala de espera.
-- Tem dia que é assim (glup)... Meu nome é Clara (glup).
Ver Clara chorando copiosamente naquela saleta, onde era impossível olhar para outro lado ou ignorar sua tristeza, trouxe um certo alívio a Sofia. Ela comprovava a dor que também sentia, sem nome, sem razão certa, em outra pessoa. A amizade foi instantânea depois da compaixão de uma pela outra: Clara por revelar-se inteiramente e Sofia por dividir a dor e os lenços. E foi assim.
Tuesday, June 03, 2003
Mundos paralelos, indivíduos adjacentes
- 1a parte -
Clara conheceu Antonio na noite em que tomou seu maior porre. Apaixonou-se por ele alguns minutos antes de misturar as várias taças de vinho tinto com uma batidinha maneira de aguardente. Ele, por sua vez, interessou-se por ela logo na primeira risada escrachada que ela deu e foi mantendo as risadas altas e constantes à base de drinks ao longo da noite. Dançaram, conversaram, riram mas, quando eram quase 8 da manhã, os primeiros raios de sol chegavam com dores de cabeça lancinantes anunciando o fim do porre, a sede e a despedida meio sem jeito.
E foi então que Clara, caída de amores por Antonio, passou semanas grudada no celular. Foi a ressaca mais dura da história.
Cinco semanas depois, quando a esperada ligação chegou, Clara, de pijama vendo Seinfeld, disse, prontamente:
-- Não, obrigada.
Recusou o convite e dormiu abraçada com o orgulho. E Antonio, pra não dizer que perdeu a noite, pegou mais uns 2 numeros de telefones para os quais, obviamente, não tinha intenção nenhuma de ligar.
Algum tempo depois, em áreas distintas da cidade, num sábado ensolarado que tinha tudo pra dar certo, os dois levavam "um cano" de terceiros e pensavam se isso não seria um karma recém adquirido por eles, cada qual em seu canto da história.
- 1a parte -
Clara conheceu Antonio na noite em que tomou seu maior porre. Apaixonou-se por ele alguns minutos antes de misturar as várias taças de vinho tinto com uma batidinha maneira de aguardente. Ele, por sua vez, interessou-se por ela logo na primeira risada escrachada que ela deu e foi mantendo as risadas altas e constantes à base de drinks ao longo da noite. Dançaram, conversaram, riram mas, quando eram quase 8 da manhã, os primeiros raios de sol chegavam com dores de cabeça lancinantes anunciando o fim do porre, a sede e a despedida meio sem jeito.
E foi então que Clara, caída de amores por Antonio, passou semanas grudada no celular. Foi a ressaca mais dura da história.
Cinco semanas depois, quando a esperada ligação chegou, Clara, de pijama vendo Seinfeld, disse, prontamente:
-- Não, obrigada.
Recusou o convite e dormiu abraçada com o orgulho. E Antonio, pra não dizer que perdeu a noite, pegou mais uns 2 numeros de telefones para os quais, obviamente, não tinha intenção nenhuma de ligar.
Algum tempo depois, em áreas distintas da cidade, num sábado ensolarado que tinha tudo pra dar certo, os dois levavam "um cano" de terceiros e pensavam se isso não seria um karma recém adquirido por eles, cada qual em seu canto da história.
Thursday, May 29, 2003
Tuesday, May 20, 2003
Mrs. Dalloway
Podia usar a piscina, depois não podia usar mais. O dia amanhaceu lindo e eu pulei da cama com medo de que estivesse chovendo. Suspirei aliviada e fiquei pulando de um lado pro outro porque tinha dado um mal jeito no pé esquerdo. E fui fazendo as coisinhas todas fora de ordem, limpando daqui, arrumando a mesa dali, até que o brigadeiro não ficou no ponto e não deu pra enrolar - e o que faço agora com tudo aquilo de chocolate granulado e forminhas? Tinha esquecido até de tomar banho e passei 5 minutos decidindo se ia lavar a cabeça, se daria tempo do cabelo secar, se eu ia fazer escova ou deixar secar ao natural. Lavei tudo. Foi aí que não podia mais usar a piscina, que só podia usar até as nove da noite, que não podia fazer nada e não tinha nenhum superior pra gente reclamar, porque porteiro é igual em todo lugar do mundo. Troquei de roupa em cima da hora e me concentrei pra botar meu sapato de salto mais alto e foda-se o pé machucado, agora era pra ele funcionar direito. E a porta foi se abrindo em intervalos próximos e desiguais e no meio de papel de presente, sanduíches e caipirinha, muito flash e gargalhada. E Campari, porque é vermelho e me faz lembrar do meu pai que me fez chorar na frente de todo mundo quando finalmente a ligação chegou no meu celular porcaria pré-pago. Pai, tava triste que vc ainda não tinha ligado - e soluços. E klinex. E dá-lhe bossa-nova e samba e salsa. Nunca o espaço fica pequeno, a gente aperta mais pouquinho e traz a cadeira do quarto, o banquinho da cozinha e vai repondo o salaminho, o presunto crú o queijo suiço e o requeijão que passa de mão em mão quando chega o pão-de-queijo. Quando alguém bate na porta e tenho um enfarto do miocárdio. Mentira. O sangue pára todo em alguma parte do meu corpo e eu, estátua, mostro os dentes e digo "oi". Ou "hola", ou "hi". Não lembro. Nem comi nada. Fiquei lá observando a bagunça e adorando cada segundo. Dividindo cadeira cada hora com um convidado e aproveitando uns dedinhos de prosa. Quando resolvemos transgredir as regras e viva a vista linda da piscina, o sol já tinha se posto, mas o céu é sempre um espetáculo. Olha a Lua! E a pergunta foi se eu era romântica e era tarde demais. Eu sou. Eu não. E mesmo assim gostei da resposta sincera. E mesmo assim foi uma noite linda e o céu um espetáculo e pra mim, a Lua. E o coração apertou. E o ar faltou. E o aniversário passou lindo por mim que nem lembrava quantos anos tinha.
E lembrei por fim que tinha me esquecido das flores pra enfeitar a casa. Mas a casa já estava tão alegre. E eu também.
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